sábado, 7 de março de 2020

PEDRO DE TRÓIA EDITA HOJE O DISCO DE ESTREIA A SOLO















À procura de se reconciliar consigo mesmo, Pedro de Tróia edita hoje o disco de estreia a solo.

Depois de encabeçar uma das bandas mais criativas que a música portuguesa conheceu - Os Capitães da Areia - o cantor e compositor apresenta um incomum e assinalável trabalho, repleto de delicadeza e generosidade, com a elegância pop que o caracteriza, como fio condutor para uma descoberta que também é nossa.

Ao longo de dez canções, oferece-nos muito do que sonhou, do que perdeu, aquilo por que lutou e o que aprendeu. “Depois Logo Se Vê", com produção e arranjos de Tiago Brito, é de quem se dá inteiro e pode ser ouvido a partir de agora. Com o apoio da Fundação GDA.

Concerto de apresentação dia 13 de Março no Musicbox, em Lisboa. 

Bilhetes aqui.


"DEPOIS LOGO SE VÊ", por Nuno Miguel Guedes

Da candura como uma das belas artes

Não sei como irá ressoar o que vos quero dizer. Provavelmente não importará porque a urgência se torna maior. Mas a verdade é esta: esta colecção de canções reabilitou sem medo uma palavra em desuso, esquecida injustamente nestes tempos difíceis de barricadas e poucas pontes. E essa palavra é candura.

Inocência, ingenuidade: eis o que o dicionário vos oferece. Mas o que o Pedro lembra é que é mais do que isso – é um modo de ver e de sentir e de criar. Para ir ao que interessa: os primeiros sinais dessa estética afectiva surgem logo no primeiro tema, onde se canta, sob uma melodia pop imaculada: «Sempre fui embaraçado/desde o tempo dos dentes de leite/magro, corado, educado/sem ponta que desaproveite». Segue-se o lamento sobre o que esta condição custou ao cantor em termos afectivos. Aparentemente, esta é uma canção que pede uma libertação de algo que irreversivelmente já se é e a sua melancolia doce vem do reconhecimento desse facto.

Está dado o tom para o disco, eis a minha teoria. Reconheço o mesmo pudor por vezes triste e revoltado em temas como Nunca Falo Demais, Dentes de Leão ou Ela Não Vem. E se Pedro de Tróia já nos tinha oferecido ambientes semelhantes nos Capitães da Areia, por exemplo, desconfio que aqui seja diferente. Porque Depois Logo Se Vê, quer-me parecer, é um disco à flor da pele, confessional, a um passo do diarístico. É essa verdade cândida que o perpassa e lhe oferece a sua beleza maior. Claro: há as composições, que como é a marca do autor, bebem muito no legado da música moderna portuguesa dos anos 80. Há as palavras, que Pedro trata bem, carinhosamente mesmo. Mas o que sobressai é este objecto raro e corajoso que não tem medo do desastre delicado da alma que pretende mostrar. Mais: não tem medo que se diga que aquela alma é mesmo a sua.

Não é fácil lidar com sentimentos que são espelhos mas é isso mesmo que este disco faz. E melhor: contamina com ternura e firmeza essa intenção. Eu sei do que falo porque me reconheço. Sempre fui embaraçado mas nunca tive coragem de o reconhecer. Felizmente o Pedro redimiu a candura de um só golpe e posso quase, a partir de agora, enfrentar o mundo e a mim próprio com um olhar mais terno.

Sem comentários: