No balanço anual da loja de discos Flur para 2020, o Leio (aka Rabu Mazda, civilmente registado como Leonardo Bindilatti) era convidado a revelar, entre outras coisas, o qu esse ano trouxe de bom e de mau.
Por debaixo da alínea “2020 Mau”, aparecia apenas “não sei” como r e s p o s t a l a c ó n i c a . S e n ã o conhecesse o Leio, acharia que essa resposta teria vindo de alguém arrogante e alienado de toda a merda que nos aconteceu em 2020.
Contudo – e conhecendo a peça há alguns anos – essa recusa de mencionar os males associados a 2020 faz todo o sentido vinda do Leio e agora ainda mais sabendo que é dele a autoria do álbum “Bindi”, por via do seu aliás Rabu Mazda. “Bindi”, assim como a resposta em branco para o “2020 Mau”, só poderiam partir« de um otimista crónico, alguém que invariavelmente vê o copo meio-cheio em vez de meio-vazio.
Imbuído nessa vibe risonha (happy) e tranquila consigo e com os outros, “Bindi” soa a manifesto “confiançudo” e descomplicado assinado num tag de letras bem gordas por Rabu Mazda. Esta dourada colheita de 11 songs soa igualmente a disco cheio de luz concebido por quem nunca deixou de a ver (ou imaginá-la) ao fundo do túnel.
Embora a física nos impeça de todos termos alguém assim por perto, a existência deste disco permite que muitos estejam ligados ao alto astral de Bindi (há pouco era Leio) quando e onde lhes apetecer (era assim também com o Game Boy). Que bonito é o milagre da multiplicação da alegria e fun assegurado pelos discos. Falo de “luz” e “milagres” neste modo quase religioso, porque não é qualquer disco que troca as voltas aos meus 42 anos e me mete a desbundar este trippy trap como se tivesse 24. Obrigado, manz. As minhas segundas vão passar a ser mais domingos. Portanto é cagar no botox e nos peelings: “Bindi” rejuvenesce mais que tudo isso (e atenção que a faixa
“Cantar baixinho” revela até um Rabu Mazda numa onda mais ASMR!). Era este o álbum com que sonhava há algum tempo vindo do Lee Perry das Olaias, do Professor Pardal da Fetra (títulos que atribuí ao Leio em diferentes momentos e com um exagero brincalhão). Enquanto não chega a cura para o mundo, mora aqui a cura para o baixo astral.
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Miguel Arsénio
nov. 2021
--Cafetra Records--
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