
Peguei neste disco várias vezes. E várias vezes o escutei. Sentia em mim a necessidade de o interiorizar antes de começar a preencher a folha em branco. E como em qualquer relação de amor fui descobrindo a cada contacto mais motivos de encanto. Se bem que a paixão já não é de hoje e a relação com os A Jigsaw já dura à uns anos.
Passo a explicar por que é que este “Drunken Sailors & Happy Pirates”, me fez prender a ponta dos dedos de cada vez que me sentava em frente ao computador para começar a escrever a critica. Simplesmente porque este é o disco mais difícil de toda a carreira da banda.
Ao quarto registo o grupo de Coimbra oferece-nos o disco mais complicado de penetrar. Se bem que ele comece de forma luminosa com o brilhante single” The Strangest Friend”. Logo a seguir a neblina paira, para se dissipar na faixa “Lovely Vessel”, que conta com a doce voz de Tracy Vandal a menina dos Tiguana Bibles. Mais à frente este disco volta a sorrir com o tema “ Rooftop Joe” e termina de forma bem bonita, em tirada spoken word, com a canção que dá título ao trabalho.
Os restantes oito temas, que fazem o todo deste registo conceptual, que nos fala de piratas e marinheiros, levam mais tempo a desbravar. Mas a cada audição percebemos que estão aqui canções gloriosas.
Mais uma vez notamos nos A Jigsaw uma vontade de mudança. Sem perderem de todo a sua raiz folk a banda abraça igualmente outros estilos, fruto da compra de alguns instrumentos, essencialmente teclados, que estão agora muito mais presentes nas suas composições. Não será estranho se vos disser que a paixão por Nick Cave, Leonard Cohen e até um Tom Waits está muito mais vincada neste trabalho.
Chegados aqui, os A Jigsaw partem para Portalegre, para um estúdio onde nunca tinham gravado e na companhia de um técnico que apenas os tinha acompanhado ao vivo, e registam este disco de forma sublime. João P. Miranda, embarca neste barco e torna-se mais um tripulante desta viagem, dando sempre as coordenadas certas para que o barco não navegasse à deriva.
Podem pensar que o que os A Jigsaw fazem, chegados ao quarto disco, é um risco. Sim, mas bem calculado. A banda foi crescendo até se tornar adulta. Ganhou a pulso um território difícil. Criou empatias. Fez libertar paixões. E conquistou o mundo. Foram a banda portuguesa que mais vezes tocou lá fora o ano passado. Os Espanhóis adoram-nos. Por isso o trio base do grupo tem toda a legitimidade para arriscar e até com isso ganhar novos amores.
Apesar de este à partida ser um disco difícil, mostra-nos uma banda segura, e com uma composição muito refinada. Este álbum é para ir sorvendo aos poucos, para que não nos escape nenhum pormenor. Porque este é um disco inspirador. Sensível. Uma verdadeira pérola descoberta numa ostra no fundo do mar.
“Drunken Sailors & Happy Pirates” é um disco, e disso a capa é um belo exemplo, pardacento. Companhia perfeita para fins de tarde chuvosos em que imaginamos em alto mar, piratas felizes (de pala no olho e perna de pau), com os seus saques e marinheiros bêbados à espera de chegar a bom porto para reencontrarem os seus amores.
Por isso entremos na caravela e viajemos em alto mar na companhia destes timoneiros. Afinal Portugal descobriu o mundo por mar.
Nuno Ávila
1 comentário:
Obrigado por ouvires as canções. Por lhe dares o tempo...
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