quarta-feira, 7 de março de 2012

O QUINTO DE ANTÓNIO ZAMBUJO POR AGUALUSA







O escritor José Eduardo Agualusa escutou o novo trabalho de António Zambujo e teceu as mais elogiosas considerações. «Quinto» chega aos mercados no próximo dia 2 de Abril.

UMA VOZ INAUGURANDO O MUNDO

Quando o António Zambujo e o Ricardo Cruz me pediram para escrever alguma coisa sobre o seu novo disco aceitei logo. Não é difícil escrever sobre bons projetos. Um bom projeto é aquele que nos provoca, que nos faz pensar. Mais: que nos melhora o pensamento.

Além disso, os bons projetos, como este “Quinto”, transformam-nos a todos em prosélitos. Ouve-se este disco e a vontade

A primeira vez que ouvi falar em António Zambujo não foi em Portugal – foi em São Paulo, através de Marília Gabriela, uma das mais influentes jornalistas do Brasil. Estranhei o entusiasmo de Gabi. A seguir fui escutar o disco, era o “Outro Sentido”, de 2007, e dei-lhe razão. Nunca escutara nada semelhante.

Surpreendeu-me em primeiro lugar a voz de Zambujo, capaz, sem esforço, de iluminar cada palavra. Agradou-me, além disso o saudável desrespeito pelas fronteiras. A facilidade com que mistura diferentes géneros, do fado à bossa nova. Finalmente, seduziu-me o bom humor e a ironia de algumas das letras que canta. Tudo isso reencontrei no disco seguinte, e, agora, neste “Quinto”: os temas que se escutam com o encantamento de quem redescobre a própria infância, a juventude, e até a velhice que, eventualmente, ainda nem chegou.

Cantadas por Zambujo, todas as coisas ganham uma luz de princípio de mundo.

Porque o que mais me impressiona é a frescura (a alegria) com que, ao quinto álbum, António Zambujo continua a cantar. Está tudo dito no tema: “Algo Estranho Acontece”: a permanente inauguração de um universo que, não obstante a repetição, porque o tempo é circular, constantemente se renova. “Eu vivia tudo novamente”, canta Zambujo – e é isso que queremos, enquanto o escutamos. Viver tudo, novamente, e, de cada vez, viver tudo como se estivessemos a estrear a vida.

José Eduardo Agualusa

1 comentário:

paulo júpiter disse...

Gostava de escrever assim com tão doce verdade... como se cada palavra fosse um rio de um "Quinto" em direcção à foz... Perfeito no que de melhor não podia ser!