O novo disco de C de Crochê (nome de guerra de Adriano Fernandes, baixista de Chibazqui e de Cochaise e colaborador habitual de Filipe Sambado e Filipe da Graça, entre outros), intitulado "Thug Life", vai estar disponível para escuta integral e gratuita no bandcamp do próprio a partir da próxima segunda-feira, 25 de Janeiro.
O disco foi gravado entre Albufeira, Londres e Lisboa e foi produzido e misturado pelo Filipe da Graça (aka Filipe Fernandes, o seu irmão). A masterização ficou a cargo do Alexandre Pereira e o trabalho gráfico é do Silas Ferreira.
A edição física do disco, com o selo FlorCaveira, vai estar disponível para venda no concerto de lançamento no dia 4 de Fevereiro no Lounge (Rua da Moeda, 1, Lisboa), concerto esse que contará ainda com a actuação na 1ª parte do Filipe Sambado.
Martinho Lucas Pires, outro comparsa musical, escreveu as seguintes palavras sobre o mesmo:
Era uma vez um Crochê
Estabelecido nos limites da Graça, próximo já da zona alfâmica da capital, o poeta-local C de Crochê tentava encontrar um caminho para a sua expressão criativa, rica e entusiasmada, para, como se diz, passar das palavras às canções. Por um lado, havia o gosto das américas, personalizado por uma aderência literária à escrita de John Cheever e de Raymond Carver. Por outro, um amor e conhecimento enciclopédico pela canção popular e pela história da mesma.
Logo no primeiro álbum, o EP “Sempre a Ver a Luz” se declamavam aventuras pela estrada (do algarve à capital, quantos quilómetros de sonho) no “País do Carver”, que não é assim tão diferente deste lugarejo europeu em que nos encontramos. Os sons são mais acústicos, de violas e guitarras, e o falsete é usado sem medo. Acompanhado por uma mítica soma de amizades musicais, apresenta-se em seguida com “C de Croché e os Naperãos”, novo curta-duração (outra característica: o gosto de dizer muito em poucas malhas), onde o roque é “quadrado”, os centímetros cúbicos da viatura aumentam, e o humor rotineiro (“Leões com Bounty”) era regra.
Passaram-se quatro anos desde então. Nesse período, acumulou batidas, gravou violas, levou os baixos para a costa de Albufeira e foi juntando as peças. Com a produção e ajuda fraterna de Filipe da Graça, o corpo foi-se juntando. No frio londrino adicionaram-se guitarras calorentas (cortesia dos “shoegázicos” Lull) e outros requintes de luxo. O resultado, chegado agora até nós, é de conteúdo explicito: “Thug Life”.
Apesar da declaração de que no “nordeste a vida é do best”, espelhada em “A Vida é Assim (vou para o nordeste), aqui o piscar-de-olhos é assumidamente dirigido na direção oposta da bússola. Falamos do noroeste, da América da “street”, de estilo “moda-fóca”. Vejam-se as batidas da canção-título, ou de “Ghetto Star”. Ao mesmo tempo, entram melódicas guitarras acústicas, para acamar refrões (uma suplésse de produção graciosa), e dar ritmo à vida solarenga do anti-herói. “Baby” mostra o despudor por termos corriqueiros de rua à la anos noventa. Mas a melhor de todas é “Baile Funk”: batida, violinha, viagem para o morro dançar. Em todas, um baixinho saltitão (ou não fosse Crochê) pronto para dar mais balanço à aventura deste “man”.
É nesta dualidade entre a descrição crua de uma mundanidade divertida e a universalidade mais catchy que pode haver que o nosso anti-herói melhor se expressa. Um artesão que tenta pôr o mundo rotineiro — diga-se: a vida mais “de bairro”, a linguagem mais “do peito”, os sentimentos mais “à pele” — no cânone da linguagem musical pop, seja ela a do roque éne role imediato, da balada mais sedutora, ou da pop mais “in-your-face” que possa existir. “Thug Life” é essa concretização acertada: saltando da “rua” para o “rádio”, com o pagode da pop na mão.
No fundo, C de Crochê é durão e branco, e mesmo “nice” pela diversão que nos traz, dono de um talento singular em que o melhor do jargão da “street” de lisboa se junta à luso-beat mais descarada para dar-nos uma viagem de bom ritmo, bom som, bom humor. “Thug Life, baby”, só demonstra que ele está aqui, para ficar. Vamos ao baile, funcalhada.
Martinho Lucas Pires

Sem comentários:
Enviar um comentário