Chega hoje às plataformas online O País a Arder, o disco de estreia dos Sereias. Com selo Lovers & Lollypops, o LP tem será apresentado ao vivo no Understage do Rivoli - Teatro Municipal do Porto, a 29 de Novembro, no âmbito do Porto/Post/Doc, e em Lisboa a 5 de Dezembro, no Sabotage. Os concertos serão acompanhados pelo vídeo de Francisco Laranjeira, que usará imagens dos filmes "Porto Abril 1975", "O 11 de Março de 1975" e "O 25 de Novembro depois…" de José Alves de Sousa, realizados nas ruas do Porto durante o PREC. Os discos físicos estarão disponíveis para compra em ambas as datas.
Os Sereias são: António Pedro Ribeiro (voz), Arianna Casellas (voz), João Pires (bateria), Julius Gabriel (saxofone), Nils Meisel (sintetizadores), Sérgio Rocha (guitarra) e Tommy Luther Hughes (baixo), Celestino Monteiro (documentação) e Francisco Laranjeira (vídeo).
Um protesto avant-garde!
Está tudo bem, certo? Está sempre tudo. Neste cantinho à beira mar plantado, templo de Sol, escravo de praia e volúpia entregue aos humores do destino, impotente face ao constante azedume e indignação do nosso queixume. Ginásio da berra lá no bairro durante a semana, clube da moda ao sábado e shopping ao domingo (repetir a fórmula a doses cavalares). Odiar a mudança, ter horror à rotura, bajular a norma, radicalizar o centro. “Tão humildezinho, coitadinho!” Nunca atrair as atenções porque somos um “colectivo”. Rasgar o ventre do individualismo e pacificar a revolta primordial que parte das tripas. Conter, conter sempre o confronto. “Vais-te chatear para quê?”
Respeitar a estabilidade e exorcizar os três anjos negros da “demagogia”, do populismo” e do “reacionarismo”.
Os Sereias são: António Pedro Ribeiro (voz), Arianna Casellas (voz), João Pires (bateria), Julius Gabriel (saxofone), Nils Meisel (sintetizadores), Sérgio Rocha (guitarra) e Tommy Luther Hughes (baixo), Celestino Monteiro (documentação) e Francisco Laranjeira (vídeo).
Um protesto avant-garde!
Está tudo bem, certo? Está sempre tudo. Neste cantinho à beira mar plantado, templo de Sol, escravo de praia e volúpia entregue aos humores do destino, impotente face ao constante azedume e indignação do nosso queixume. Ginásio da berra lá no bairro durante a semana, clube da moda ao sábado e shopping ao domingo (repetir a fórmula a doses cavalares). Odiar a mudança, ter horror à rotura, bajular a norma, radicalizar o centro. “Tão humildezinho, coitadinho!” Nunca atrair as atenções porque somos um “colectivo”. Rasgar o ventre do individualismo e pacificar a revolta primordial que parte das tripas. Conter, conter sempre o confronto. “Vais-te chatear para quê?”
Respeitar a estabilidade e exorcizar os três anjos negros da “demagogia”, do populismo” e do “reacionarismo”.
De certa forma, “O País a Arder” é àquele elo de ligação (perdido) entre as gerações pós-25 de Abril e o novo milénio made in EU, de um “país” que foi forçado a crescer da mesma forma que o filho varão teve de tomar conta da família, nos tempos da outra senhora. Todo o álbum atravessa esses diálogos metafóricos, entre o niilismo, a tentativa de redenção, a ausência de comunicação e as consequências desse vácuo nos últimos 40 anos. Fala dos vícios e da herança pesada de um conjunto de costumes pavlovianos, deixados por uma espécie de “Laranja Mecânica” à Portuguesa. A psicanálise de um trauma nacional, que por vezes é regional e outras Europeu – sempre complexado em ser as três coisas, simultaneamente. Numa época em que grande parte das bandas se tornam caricaturas delas próprias, wannabes de uma qualquer cena, respostas aos maneirismos do momento e completamente reféns do voyeurismo social, as “Sereias” levam o país ao divã. E como o Portugal artístico precisava disso. Este é um tratado político, social e filosófico, num tempo em que tudo isso corresponde a uma afronta ao status quo, ao grande mestre. Escrito com uma violência enganadora, nas entrelinhas da provocação, na epiderme de uma couraça onde se pode bater à vontade.
Não só nas letras, mas também na música. Neste formato avantgarde, punk, free jazz e post-rock (não na aceção da etiqueta, mas no sentido literal de algo após o rock) que casa com essa mensagem, na erupção voluntária de sentidos, na liberdade da execução e na negação dessa mesma postura convencional. Uma (in)disciplina “zappliana” que nos leva para os territórios de This Heat, Pere Ubu ou The Fall. E se o disco representa uma audácia aviltante nessa multiplicidade de perfis, a praxis ao vivo é não só direta, intempestiva como canibal e exasperante. O equilíbrio mantém-se à base dos extremos e tão desconfortáveis no palco se parecem, que acabam por manter o foco no público. Nos nossos problemas, nas nossas aparências, nas nossas vidinhas! Bem sei que é apenas um álbum, mas desde os Mão Morta que não se via uma banda nacional tão corajosa, original, outsider e estrangeira no seu próprio país.
“Mas porquê tudo isto”, perguntar-me-ão vocês, “afinal toda a gente tem Facebook!” Pois, só que ao contrário do Facebook, “O País a Arder” serve o distinto papel de juiz no ringue de boxe que nos opõe a nós próprios. Não nos oferece a pílula do esquecimento “do nosso perfil”, dentro de uma Matrix amestrada.
Manuel A. Fernandes.

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