Coisa Nenhuma é o primeiro álbum de Fernando Triste, com edição Revolve e vaticinado de forma certeira pelo próprio autor está disponível a 14 de fevereiro no Bandcamp e restantes plataformas de streaming (e em cassete, na japonesa Commune). Com um epíteto clinicamente escolhido, este registo debutante é um conjunto de canções que não soa a estreia, um disco contemporâneo que não se fica pelo presente, um role de tristezas que se descrevem num ácido humor, um nada que cresce para tudo e um pouco mais do que Coisa Nenhuma. Contudo, como com tudo o que generaliza, a ausência de algo impõe-se — e é nestes vazios líricos que Fernando Triste melhor nos preenche.
Fernando Triste é, na verdade, Fernando Amado, um compositor de contradições em forma de canção a dar um novo fôlego à bedroom pop portuguesa. Amado divide o seu tempo entre o seu emprego enquanto engenheiro e a sua vida de cantautor no seu quarto em Almada, junto à sua cama, onde encapsula o que fica adiado no seu turno diurno e assim ganhar uma vida impossível de amores, desamores e humores após sol posto. Não menos importante, é também o irmão mais novo de Bráulio Amado, artista visual e membro de PAPAYA e Adorno, com quem a Revolve mantém uma relação de colaboração, e que assina o design da capa de Coisa Nenhuma.
Depois de ter-se dado a conhecer ao mundo, em julho de 2024, com o single Vida Pouca, Fernando Triste lança agora um conjunto de treze temas que compões o álbum.
Com um aura evidentemente retromaníaca, desdobrada de faixa em faixa numa colagem de várias ondas das muitas waves, sejam dark, synth, vapor ou new, as tonalidades pop de Coisa Nenhuma sobressaem ao carregar de contraste uma peça que de outra forma seria inevitavelmente feita de breu. É na língua bifurcada do cantautor que melhor vive a sua aura de contemporaneidade, abordando temas de levar ao colapso nervoso com a simplicidade minuciosa de um meme; faz uso das suas belas composições como de um template para desdobrar formatos criar novos significados.
Escuro atravessa tempos e latitudes para abraçar motivos eletrónicos a lembrar décadas em que estes irromperam para o zeitgeist, existindo ao mesmo tempo agora e há décadas atrás; Tu És Uma Estrela disfarça uma triste e insultuosa conclusão com um enorme carinho corrosivo, pintado a sons vapor e distorção vocal à laia de interrogatório sobre uma comovente melodia e uma cadência de ritmo processado de forma inocente; Escorpião, solene como mandam os astros, é uma peça sincopada que serve tanto de preliminar como prevê os movimentos que se insinuam como seguimento natural lânguido.
Coisa Nenhuma existe em tudo o que nos é familiar, usando camadas de sons deliciosamente molhados, reverberantes e carregados de cor sobre percussões secas, diretas, que criam peças irremediavelmente pop sobre temas carregadamente sorumbáticos. Se o humor não vos salva, Coisa Nenhuma o fará. Estamos condenados a ficar como Fernando Triste e a habitar as suas canções.

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