quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

LUCENA COM NOVIDADES





















Luís Lucena nasceu e cresceu entre margens e geografias musicais distintas (de Radiohead a Zeca), numa deriva que reflecte a sua abordagem artística. Integrou várias bandas e projectos enquanto guitarrista, baixista e vocalista (Lydia’s Sleep, SAUR e quartoquarto), deu braços aos colectivos Medeiros/Lucas, Jibóia Experience e é, actualmente, parte integrante de Melquiades e Alomorfia. Num ecossistema criativo onde a colaboração é central, mantém simultaneamente uma intensa actividade como técnico de som, produtor e sound designer, colaborando com estruturas ligadas ao teatro, ao cinema e à publicidade, em que revela a sua mestria em criar jingles memoráveis.

Desta experiência resulta um estilo pessoal vincado e transdisciplinar que cruza sons, imagens e palavras característicos de uma busca constante por novas formas de expressão. É neste contexto que surge o mais recente projecto a solo, Lucena, em que assume por completo a composição, interpretação e direcção criativa - fruto de um trabalho artístico desenvolvido ao longo de vários anos, reconhecido tanto pela subtileza sonora como pela eficácia emocional, um artista em permanente trânsito entre linguagens e sensibilidades, afirmando-se uma voz singular no panorama.

Era uma vez Vida é o seu álbum de estreia. Construído a partir de histórias sobrepostas e fragmentos de intimidade, apresenta-se como uma narrativa que se dobra em si própria, expondo contradições, promessas e estados emocionais diversos. Entre o poema mais confessional e o gesto mais cru, o disco mantém um equilíbrio subtil entre excesso e minimalismo, tanto na lírica como na abordagem musical. As influências da música portuguesa cruzam com a indie/pop alternativa internacional e são disruptivas nas ideias e arranjos, acabando no mundo da fusão.

É um disco virado em si, com vontade de se inscrever fora mas sem fazer disso necessidade. Os ritmos
hipnóticos do inseparável Diogo Sousa (Garota Não, Lavoisier), tal como as pequenas participações peculiares de vários músicos ao longo do disco (Femme Falafel, Raimundo Carvalho), funcionam como eixo entre os devaneios mais aleatórios trazendo fluidez e coesão aos momentos mais errantes, deixando uma sensação de que fazer música é isso mesmo: um eterno desabafo sobre quem somos com os nossos entes queridos e como é que isso soa junto deles.

 

Sem comentários: