segunda-feira, 16 de maio de 2011

REVISITAR JOSÉ AFONSO



O princípio de uma aventura

Todos sabemos quem ele é. Até quem nunca o viu ou ouviu o seu nome. Até quem nunca o ouviu. De uma forma ou de outra, todos nos cruzámos com ele. Talvez sem reparar, porque a personagem é discreta.

Cabelo aos caracóis, despenteado, óculos de míope, calças largas, de bombazina. Ar estremunhado. Típico coimbrão. Boémio da Real República do Rás-te-parta e dos Inkas. Pensando melhor: um gajo de Setúbal. Um agitador da cintura industrial. Margem sul. Do Alentejo, já agora. Mestre do cante, compadre trabalhador da vila morena. Do Algarve, professor de Faro. Vendo bem, é um transmontano. Tipo rude, emanação do granito. Bicho do mato.

Homem simultaneamente misterioso e vulgar, uma imagem que é e não é, que se transforma no que queremos ver, no que precisamos de ver, como as manchas de tinta do teste de Rorschach, com que os psicólogos fazem emergir o que há de irredutível e único em cada pessoa.

O Zeca Afonso é isso. Um ser reverberante e simbólico, no qual cada um se consegue ver e ouvir. Um homem igual a todos. Com uma voz extraordinária, mas essa parece que não vem dele. Atravessa-lhe o peito mas não nasce lá. Sai de nós. E irradia dele.

Ele, o homem do povo e o doutor, o mouro e o sefardita, o agente provocador e o seminarista, o pusilânime e o clandestino, o fadista e o revolucionário. Um pouco lunático, um pouco utópico, um pouco assustador. Lírico, grotesco, louco de Deus, trovador bêbado de poesia e crueldade, goliardo da Carmina Burana da última Idade das Trevas.

Se o profanaram, a culpa é dele. Nos últimos anos de vida, já sem voz, queria gravar discos. Fazia as músicas e pedia a outros que as cantassem. Aconteceu com Galinhas do Mato, em 1985. José Mário Branco, Janita Salomé, Luís Represas, Né Ladeiras e outros gravaram os dez temas originais. No estúdio, o Zeca, muito doente, em frente do intérprete, tentava explicar-lhe o que queria, com gestos e pulos, caretas e gritos inaudíveis. Contorcendo-se num desespero de transmitir tudo.

De todos os discos que fez, foi este que lhe deu mais prazer, disse ele. Nunca gostou muito de cantar. Preferia ler ou conversar. Ser o mensageiro daquela voz era-lhe penoso. Cada vez mais. Por isso aquele disco em que não cantava era de todos o mais seu. E ainda tentou um outro, meses antes da morte, com José Mário Branco e Júlio Pereira, mas não chegou a conclui-lo. Mais tarde sim. Filhos da Madrugada, em 1994, e outros, com outros músicos e outras vozes e outros olhos.

Foi o Zeca que inventou essa ideia louca de gravar discos depois de morto. Discos autênticos, da sua legítima autoria, não versões, ou colectâneas. Fê-lo não para se perpetuar ou ser maior do que si próprio. Mas porque criou uma voz demasiado íntima para ser só dele. Que talvez um dia seja cantada, gritada, sem que ninguém se lembre a quem pertencia. O Zeca haveria de gostar disso.

Uma voz que era todo um país, todo um futuro, construído palavra a palavra, som a som. Nada ficou como dantes. O Zeca inventou significados novos para tudo. Primeiro para deixar para trás a comissão de censura, mas depois para deixar para trás a realidade inteira,infecta e cúmplice. Foi salvando cada palavra, transferindo-a para o lado do futuro, imitando os emigrantes que passavam a salto as fronteiras.

Criou uma linguagem, feita de lengalengas e onomatopaicos, frémitos, pulsares e gemidos, os murmúrios dos oprimidos, os assobios, as trovas trauteadas do povo reguila, o escárnio dos revoltados, a sabedoria dos analfabetos e a gíria dos clandestinos. E essa voz, essa torrente magnífica, tinha vida própria, era um cosmos, uma cultura, uma alegoria completa. Uma casa onde se entrava e se podia respirar. Onde nos podíamos entender.

O Zeca falava dos vampiros, e todos sabiam a quem se referia. Dos filhos da madrugada, da noite de breu, da morte que saiu à rua, do pintor que morreu, e todos sabiam do que estava a falar.

Cantava: era de noite e levaram quem nesta cama dormia, e compreendiam-no. O soldadinho não volta do outro lado do mar, e compreendiam. Vejam bem que não há só gaivotas em terra quando um homem se põe a pensar, e compreendiam. Venham mais cinco,
e compreendiam.

Tudo era metáfora. Mesmo quando cantava: eu fui ver a minha amada, ai à sombra do milhoverde, do Choupal até à lapa, dorme meu menino a estrela d’alva.

E a certa altura bastava uma palavra, e uma utopia inteira emergia da noite. Uma palavra qualquer. Uma sílaba. O Zeca cantava Camões – Verdes são os campos, da cor de limão, assim são os olhos do meu coração – e aquilo de repente significava tudo. Sempre significou. Por fim bastou cantar Grândola vila morena, e provocou uma revolução.

Não era mais que uma cantiga sobre uma vila alentejana, e Otelo escolheu-a por ser a única que a censura não tinha abolido das rádios. Mas cada frase tornou-se uma bandeira. Terra da fraternidade. O povo é quem mais ordena. O próprio som da marcha, aquele ritmo dos pés no chão já continha tudo. Era o princípio de uma aventura.

Não tinha data, nem lugar, nem ficha, nem autor. Um som à espera de ser reinventado.

As canções do Zeca Afonso são todas isso. O princípio de uma aventura.

Paulo Moura

REintervenção
Vários Artistas
Tributo à obra de José Afonso
Ref: Orfeu 35.012 Cod Barras: 5602896118224
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