une autre mer, para um alumiar da alma
une autre mer é um mandato de captura do corpo para o alumiar da alma. levados que somos do escafiado porto quotidiano, anestesiados ao primeiro andamento, navegamos sobre as águas a caminho de uma ilha onde nos esperam mais quinze isolamentos em espaço de ninguém. ao segundo isolamento a dúvida, que destroços nos acolhem, que jornada? a resposta chega com o corpo já em transe, no exacto meio de um terceiro isolamento. diz-nos a inquietação interior que aqui estamos para um princípio de fuga sem sair do lugar. ao quarto já pouco se recorda a partida, já o corpo descansa sob o perfeito silêncio tímbrico. sucede-se o quinto e o sexto, e a mente já esclarecida, adquire a forma do som que a embala. assim decorrem os aperfeiçoamentos da alma, roubando do que nos toca a força necessária para o movimento interior. ao sétimo desce essa nova forma ao silêncio original. não há dúvida que repousa, que tange o corpo silencioso. assim para o oitavo e nono isolamentos onde já é raso o escuro, onde o desconforto é pouco habitual. ao décimo isolamento roda o silêncio, esparge-se a calma, dissipa-se o cansaço. a partir daqui percebemos definitivamente que esta captura nos vence. ao décimo primeiro e décimo segundo a ligeira perda de orientação, comum em périplos de rumo incógnito. mas rápido se ergue o corpo em uníssono com a alma e ao décimo terceiro a certeza é absoluta. nada nos impede mais de olhar o que não fomos. assim ocorre a revelação da forma que estes isolamentos sugerem. encontramos o calmo prelúdio da descoberta ao décimo quarto, para que ao décimo quinto se revele o labirinto a toda a luz. não há surpresa nesta ausência de caminhos concretos. este é um sopro feito para ecoar no emaranhado do existir. apesar da áspera forma, da falta de linearidade e ângulos marcados, esta é uma ilha-labirinto para a liberdade, para um alumiar da alma. sabemos que não existem rotas para o regresso, mas pouco importa desde que exista mar
um outro mar.
une autre mer
mar que sobra da paisagemmar que turner não pintou
som
murmulho da esperança
em manhã nocturna
mar para ranger os soalhos
na casa da memória
mar de ondas
a cair na maré
naveguemos
este é o farol.
16 isolamentos para um render do corpo
todo o espaço é um lugar ermoneste mar
que se tirem então todas as medidas
que escutar seja o meio de ver
o profundo como latente
o partir como o chegar.
texto e poemas de André Tomé.

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