
Blind Zero
Time Machine (Memories Undone)
26 de Fevereiro, data de edição
A PERSISTÊNCIA DA MEMÓRIA
Há algumas palavras que não é habitual aplicar aos Blind Zero e uma delas é: memória. Não porque o sexteto portuense renegue o que ficou para trás ao longo dos seus 12 anos de carreira e cinco álbuns gravados. Apenas porqu ecada um desses cinco álbuns é diferente dos anteriores. “Trigger” (1995),“Redcoast” (1997), “One Silent Accident” (2000), “A Way to Bleed Your Lover”(2003), “The Night Before and a New Day” (2005) eram visivelmente filhos dos mesmos pais, mas com identidades e personalidades diferentes. Espelhos do que os Blind Zero eram à altura da sua criação, mas também reacções a/negações de construções sobre o que tinham sido antes. O que há em comumentre os cinco álbuns? A sensação de progressão, evolução, crescimento, maturidade que cada novo disco trazia. E a compreensão de que, por trás da fé no rock'n'roll clássico como base de trabalho, havia canções de corpo inteiro, um verdadeiro trabalho de composição que geralmente passa desapercebido sob os riffs e a vertigem do refrão.
Ora, é mesmo isso que esta “máquina do tempo” (leia-se: registo ao vivo da digressão “acústica”, à falta de melhor designação) faz. É a revelação deque a banda que muitos preferem encaixar na gaveta formatada do rock'n'roll tem canções (cá está, outra palavra que não se costuma aplicar muito aos Blind Zero). OK, é verdade que elas nem sempre têm refrões evidentes, mas desde quando é que o refrão é a única medida padrão de uma canção? Repare-se no modo como “Woman”, velhinha de dez anos do primeiro álbum, se reconverte num shuffle soul à maneira dos grandes clássicos dos anos 1960, como “You Owe Us Blood” e “Big Brother” revelam o coração que estava escondido por baixo dos riffs, como “The Down Set Is Tonight” traz ao de cima uma indefinível alma “americana”.
Surpresa? De certeza que sim, sobretudo para aqueles que têm passado ao ladode uma das mais apaixonantes bandas rock surgidas no Portugal pós-“Ar deRock”. Mas também para aqueles que foram seguindo as constantes reinvenções de Miguel Guedes, Vasco Espinheira, Nuxo Espinheira, Pedro Guedes, Miguel Ferreira e Pedro Vidal — porque “Time Machine” é o ponto em que os Blind Zero abrem as portas e lançam luz sobre os cantos da casa de um modo que a exigência patente nos seus discos não faria pensar. Em que tudo se reduz ao prazer de estar em palco e à simplicidade de uma boa canção, com uma descontracção e uma espontaneidade insuspeitas da seriedade e da densidade dos álbuns. Com a mesma paixão, com a mesma entrega, com a mesma certeza deque esta é a música, esta é a linguagem, esta é a identidade.
Podia-se catalogar “Time Machine” naquela gaveta inglória do “greatest hits”ou do “álbum ao vivo”. No caso dos Blind Zero, é mais importante notar que“Time Machine” não é exactamente nem uma coisa (os “hits” que eles tiveram dificilmente serão “greatest”) nem outra (sendo “ao vivo”, este não é o registo do concerto “standard” do grupo). É, sim — e é isso que o torna ainda mais estimulante — a primeira vez que o sexteto portuense olha paratrás em disco, toma o pulso e a medida a treze anos de carreira. Como quem faz um ponto da situação antes de voltar a lançar os dados e decidir qual a direcção da encruzilhada a tomar em seguida — mas como quem diz que, já que vamos olhar para trás, vamos fazê-lo com a mesma exigência e a mesma paixãoque colocamos ao olhar para amanhã.
É por isso que dificilmente se encontraria melhor título para este disco aovivo: “Time Machine”. Porque esta máquina do tempo que olha para trás fá-loa pensar no futuro. É que nostalgia é palavra que não faz parte dovocabulário dos Blind Zero.
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