sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

MARIA SÁ SILVA "ENTRE CORDAS: ECOS DE PAREDES"





















Há artistas que nos marcam profundamente. Mesmo sem nunca os termos conhecido ou tido a oportunidade de tocar com eles, a sua forma de tocar tem um impacto tão forte que nos leva a querer ouvir e reouvir a sua música, tentando aprender tudo o que ela tem para nos ensinar. Carlos Paredes é, para mim, um desses artistas e este CD nasce desta vontade de, por um lado, querer absorver a sua maestria e, por outro, partilhar com outros a admiração que tenho por um homem que mudou a história da música portuguesa.

De facto, a sua música, e a forma como continua a tocar emocionalmente tantos ouvintes, é simultaneamente uma proeza e um mistério. Por um lado, as suas composições apresentam melodias simples e profundamente cativantes, que permanecem no ouvido e convidam à escuta repetida. Por outro, revelam uma grande complexidade técnica, testemunho do virtuosismo de um músico que elevou a guitarra portuguesa ao estatuto de instrumento solista, explorando novas possibilidades sonoras através de uma técnica absolutamente singular.

A música de Paredes representa uma verdadeira viagem pela música portuguesa, alternando entre o vigor dos motivos populares e a nostalgia e melancolia características do fado de Coimbra. No entanto, aquilo que verdadeiramente o distingue como intérprete, e que confere à sua obra um carácter tão pessoal, é o seu fraseado exímio. A alternância entre momentos de grande intensidade sonora e instantes de silêncio cria um jogo constante de tensão e distensão, fazendo com que a guitarra não apenas toque, mas cante, quase chore, estabelecendo uma ligação direta com a emoção do ouvinte.
Foi precisamente essa forma de frasear que despertou em mim o desejo de interpretar as suas obras. A vontade de compreender e absorver a mestria interpretativa de Carlos Paredes levou-me a procurar dar nova vida às suas criações através de outro instrumento: a harpa.

Este processo revelou-se uma verdadeira descoberta sonora. Encontrei sons que nunca imaginei possíveis na harpa. Guiada apenas pelo ouvido, o meu único crítico, explorei novas técnicas e efeitos que servissem a essência emocional desta música, da qual me fui progressivamente apropriando. Ao longo deste percurso, procurei abordar diferentes facetas da sua obra: a energia vibrante das danças, o cromatismo das melodias inspiradas no fado de Coimbra e as composições que evidenciam o virtuosismo do intérprete.

Sempre consciente de que interpretar a música de Carlos Paredes significa mergulhar num universo verdadeiramente inimitável, onde a execução magistral é parte essencial da própria obra, esta abordagem pretende apenas, de forma humilde, oferecer uma nova perspetiva e sonoridade a uma música que merece continuar viva, a ser tocada, ouvida e apreciada.

Expressar plenamente o impacto da música de Carlos Paredes será sempre um desafio, pois só através da sua própria experiência artística se compreende verdadeiramente a força e a profundidade das melodias que nos legou. Este CD é, assim, um convite à escuta e ao reencontro com uma obra intemporal, que continua a emocionar gerações.

Notas biográficas

Maria Sá Silva, a primeira harpista portuguesa a ser premiada no World Harp Competition, na Holanda, um dos mais prestigiados concursos internacionais de harpa, é considerada "uma verdadeira artista, inspirada pelo mundo que a rodeia, [...] usando a harpa de pedal como veículo de comunicação com o seu público" (Harp Column).

Reconhecida internacionalmente, Maria Sá Silva conquistou diversos prémios em Espanha, França, Itália e México, colaborando com orquestras em Portugal, Reino Unido, Brasil e Itália, e participou na gravação da banda sonora do filme Agadah, premiado no Festival de Veneza. Como solista, apresentou-se em salas de renome como a Casa da Música (Porto), Pinacoteca di Brera e Auditorium Latuada (Milão), Guildhall School of Music (Londres), Museo Teatrale La Scala (Milão), Centro Cultural de Belém (Lisboa) e CSO Ada Ankara(Turquia).

No seu mais recente projeto, Entre Cordas: Eco de Paredes, uma homenagem a Carlos Paredes, Maria Sá Silva explora a interpretação de obras de guitarra portuguesa na harpa, evidenciando a versatilidade do instrumento, a riqueza das experiências sonoras e a dimensão inovadora do seu trabalho artístico.

Iniciou os seus estudos musicais com apenas sete anos no Conservatório de Música do Porto, prosseguindo a sua formação em Performance Musical na Civica Scuola di Musica Claudio Abbado (Milão), sob a orientação da Dra. Irina Zingg.

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