terça-feira, 17 de março de 2026

NOVO SINGLE DE TIAGO NÓIA













Tiago Nóia
apresenta “Comem Tudo”, novo single que antecipa o seu primeiro longa duração, com edição prevista para setembro. A canção encontra-se disponível exclusivamente no bandcamp do artista, soundcloud e no youtube, acompanhada por um visualizer que reforça o universo estético e crítico do tema.

“Comem Tudo” surge como uma canção direta e incisiva, que coloca em primeiro plano uma crítica frontal ao capitalismo contemporâneo. A música estende “na mesa, a nu, um prato cheio de fome”, evocando a ideia de um sistema voraz e insaciável que transforma o consumo numa nova divindade. A imagem central da canção aponta para um capitalismo “canibal”, erguido como um novo Deus sobre as sociedades modernas - uma força que pune o amor próprio e fragiliza o cuidado pelo outro. A pergunta que atravessa o tema permanece inquietante: “o que sobra de nós quando de nós não sobra nada?”

A letra transforma essa reflexão num retrato social marcado pela ironia e pelo desencanto. “Eles comem tudo e deixam nada”, canta Tiago Nóia, numa frase que resume o sentimento de exaustão perante estruturas que prometem progresso enquanto aprofundam desigualdades. Ao longo da canção, a narrativa expõe a tensão entre sobrevivência e alienação, evocando um quotidiano marcado pela repetição e pela submissão: “Porque um homem só é livre / Depois de se vender, sempre ouvi dizer”.

O discurso lírico alterna entre sarcasmo e desespero, revelando personagens presas num ciclo de trabalho, promessas e espera. A imagem do trabalhador que aguarda autorização para gestos mínimos - “à espera de quatro em quatro horas posso mijar” - surge como metáfora de um sistema que regula até os instintos mais básicos. Ao mesmo tempo, a promessa recorrente de que “amanhã vai ser muito melhor” ecoa como um mantra vazio, repetido para manter intacta a ilusão de progresso.

Musicalmente, “Comem Tudo” condensa a identidade estética de Tiago Nóia: uma fusão crua entre energia punk, produção lo-fi e uma escrita marcada pelo surrealismo e pela crítica social. O tema foi escrito e composto por Tiago Nóia, que assume também a voz, guitarra, produção, captação, mistura e masterização. A canção conta ainda com sintetizadores e teclados de Maria Ana Guimarães e bateria de João Quinhentas. O tema foi gravado na Sala 141 do Centro Comercial STOP, espaço emblemático da criação musical no Porto. A componente visual - incluindo o artwork e o visualizer de “Comem Tudo” - foi igualmente concebida pelo próprio artista.

Natural da cidade de Machico, na Ilha da Madeira, Tiago Nóia constrói o seu percurso como artista e produtor a solo através de paisagens sonoras cruas e densas de comentário social. O seu trabalho cruza a energia do punk com um imaginário lírico surrealista e uma ironia mordaz que observa os paradoxos da vida contemporânea.

Começou a compor durante a adolescência, influenciado tanto pelas descobertas musicais partilhadas pelo pai como pelas experiências vividas após a mudança para a Irlanda. Em Dublin estudou música e integrou rapidamente a cena punk e DIY local, uma vivência que continua a marcar profundamente a sua abordagem artística e a forma como encara a criação e a performance ao vivo.

Habitualmente grava em casa com os meios disponíveis, mantendo uma ética independente e experimental que atravessa toda a sua obra. Embora colabore com outros músicos, grande parte do trabalho técnico e criativo permanece nas suas mãos. Entre as influências que moldam o seu som encontram-se bandas como Ditz, Gurriers e IDLES, enquanto nomes portugueses como Tó Trips, José Mário Branco e Linda Martini alimentam a dimensão poética e politicamente consciente da sua música.

As composições de Tiago Nóia habitam o cruzamento entre sinceridade e sarcasmo, explorando temas como isolamento, capitalismo tardio e as contradições da vida moderna. O seu som resiste a classificações simples: é um híbrido inquieto, cru e deliberado, íntimo mas voltado para o coletivo.

Com “Comem Tudo”, o artista apresenta mais um capítulo desse percurso - um tema que funciona simultaneamente como denúncia e reflexão, e que abre caminho para o seu primeiro álbum de longa duração. Num universo onde “arte é protesto, palavra é poesia e o ruído é resistência”, Tiago Nóia afirma-se como uma voz singular na nova geração da música portuguesa.

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