domingo, 15 de março de 2026

OS VULTOS QUE CHEGAM DA NOROEGA















Spectral Works tem o orgulho de anunciar a assinatura do contrato de edição com Os Vultos, uma banda de drone, noise, experimental de Bergen, Noruega, com o objetivo de lançar os seus trabalhos. Os Vultos surgiram em 2005 e aqui fica a sua pequena história pelas palavras de Artur Salgueiro:

Abel Van Pires, natural de Trás-os-Montes e emigrante na Noruega, passou grande parte do seu tempo em Bergen a trabalhar no mercado do peixe — um espaço voltado sobretudo para turistas, onde predominam trabalhadores estrangeiros. O “Van” do seu nome artístico nasceu como uma brincadeira, fruto do facto de Abel ser, por mais que tentasse evitar, o “frontman” da banda.

Jens GT Rolfsens, originário de Kristiansand, mudou-se para Bergen para estudar Literatura na Universidade local. Na época em que os Vultos se formaram, trabalhava na Biblioteca Pública de Bergen. O GT deriva da alcunha que lhe deram: era o “homem das guitarras”.

Greta Spyd Gabler veio de Kristiania (hoje Oslo) e mudou-se ainda criança para Bergen com os pais. Quando os Vultos começaram a ganhar forma, era instrutora de yoga e barista num café da cidade. No verão, apresentava-se como “viking” em espetáculos para turistas — daí o apelido Spyd, “lança”, inspirado no adereço principal da sua personagem.

Per Bølger Gyunt nasceu e sempre viveu em Bergen, embora tenha corrido mundo,m sobretudo pelo Mediterrâneo, trabalhando em cruzeiros turísticos. No momento em que se juntou aos Vultos, estava empregado numa loja de plantas e flores. A alcunha Bølger, “onda” em norueguês, remete ao seu passado no alto mar.

Conheci os Vultos por intermédio do Abel, meu amigo de longa data. Ele chegou à Noruega alguns anos depois de mim. Curiosamente, antes de serem formalmente Os Vultos, já o eram no espírito: em Bergen todos os viam como um pequeno grupo inseparável — sombras reconhecíveis entre concertos no Landmark, peças no BIT, performances de dança no Carte Blanche, visitas a museus, cafés, bares, caminhadas nas montanhas e mergulhos no fjord. Havia neles uma aura distinta, uma presença que se
destacava. Eventualmente, acabaram por viver juntos num kollektiv em Sandviken, mesmo junto ao fjord.

Segundo a lenda, a amizade começou quando Jens reparou que Abel reservava constantemente livros, filmes e música na Biblioteca de Bergen. Reconhecendo afinidades, puxou conversa. Mais tarde, apresentou-o à Greta e ao Per, num concerto de Terry Riley em 2005. A partir desse momento tornaram-se inseparáveis e acabariam por formar os Vultos.

Contaram-me que a ideia da banda surgiu de forma quase espontânea: Greta percebeu que Jens tocava guitarra e que Per sabia teclas. Quanto a ela, afirmou que podia tocar baixo — só precisava de aprender. Por exclusão de partes, restava Abel para a voz, algo que agradou imediatamente à Greta, já que ele costumava escrever no café onde ela trabalhava. Para ela, Abel poderia transformar esses textos em canções — e assim ficou estabelecido que o grupo cantaria em português. Faltando um baterista, alguém sugeriu uma caixa de ritmos. Jens gostou da ideia, sobretudo porque já tinha composições de guitarra guardadas. Per também confessou ter material de teclas que poderia ser adaptado. Abel, por seu lado, não estava totalmente convencido: não queria ser frontman.

A intenção inicial nunca foi gravar álbuns. A ideia era simplesmente tocar. Nenhum deles se considerava músico particularmente competente; duvidavam de que alguma banda, mesmo punk, os aceitasse. Também não tinham conhecimentos técnicos de gravação, mistura, masterização, MIDI ou sequenciação. Começaram com um conjunto de canções experimentais, para ver o que funcionava. As sessões de composição e gravação aconteciam na associação AKKS, no USF Verftet — uma instituição que promove a diversidade na cena musical.

Contra todas as expectativas, apesar das limitações técnicas e instrumentais, a música começou a fluir. Em pouco tempo, deram por si com material suficiente para três álbuns.

Enviaram as gravações a amigos; a maioria ignorou. Decidiram então, quase em manifesto, ser uma banda apenas para eles quatro — desligada do mundo. E assim continuaram, álbum após álbum, em silêncio e teimosia criativa.

Muita coisa mudou desde então, tanto na vida da banda como nas vidas pessoais de cada um. Porque escolheram agora — e apenas agora — editar os álbuns dos Vultos? Essa pergunta só eles poderão responder, se algum dia os encontrarem pelas ruas de Bergen. Eu próprio sempre quis saber, mas nunca obtive resposta.

Artur M. Salgueiro

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