Depois de apresentarem recentemente o single “OTOMOTO”, os Otoma-kobito revelam agora “Lastro”, o primeiro EP daquele que será o tríptico “Acervo”, projeto que culminará mais tarde na edição de um álbum completo. O lançamento é acompanhado pelo novo single “Milky Way”, aprofundando a linguagem instrumental e coletiva que define o percurso do trio.
Formados por Gonçalo Castro, Jorge Lopes Trigo e Nuno Damião, os Otoma-kobito surgem como um projeto assente na composição, improvisação e construção conjunta, recusando deliberadamente a ideia de liderança individual. Cada músico compõe os seus temas de forma autónoma, trazendo-os para um processo coletivo de montagem que os próprios descrevem como uma espécie de "puzzle musical".
Influenciados por linguagens que atravessam o rock instrumental, o krautrock, o rock progressivo, o punk, o jazz e a música minimalista repetitiva, os três instrumentistas assumem, em simultâneo, os papéis de intérpretes, compositores e arranjadores.
A identidade do projeto nasce também dessa lógica coletiva e fragmentada. O nome Otoma-kobito remete para a expressão utilizada por Haruki Murakami em “Romancista como Vocação”, onde o escritor japonês descreve o surgimento das personagens através da figura dos “anões automáticos” - entidades invisíveis que organizam e desencadeiam o processo criativo. No caso do trio, essa entidade transforma-se quase num quarto elemento, uma presença abstrata que atravessa a composição e a própria dinâmica da banda.
“Lastro” inaugura o conceito de “Acervo”, estrutura desenvolvida ao longo de quase dois anos de composição e ensaios. O projeto será dividido em três EPs de quatro temas cada, posteriormente reunidos num disco final. Cada parte corresponde a um momento distinto da viagem conceptual imaginada pelo grupo: “Lastro” representa a bagagem que se pesa antes da partida; “Atrito” corresponderá à tensão e desgaste do percurso; e “Escopo” surgirá como ponto de chegada e observação final desse movimento.
A gravação foi pensada como extensão direta dessa abordagem. Todos os temas foram registados ao vivo em estúdio, sem overdubs ou pós-produção adicional, privilegiando a captação da relação física e espontânea entre os três músicos. O resultado afirma-se como um objeto profundamente centrado na interação instrumental, na repetição, na tensão rítmica e na construção progressiva de atmosferas.
Nesse contexto surge “Milky Way”, novo single que acompanha a edição de “Lastro” e prolonga o caráter hipnótico e cinematográfico do projeto. A composição desenvolve-se através de padrões repetitivos, dinâmicas de expansão lenta e uma relação constante entre contenção e explosão, aprofundando o cruzamento entre pulsação rítmica, improvisação e textura sonora que marca o universo dos Otoma-kobito.
Os três músicos que compõem o trio acumulam percursos distintos dentro da música portuguesa. Gonçalo Castro, baixista autodidata com atividade desde o final dos anos 80, integrou projetos como AbztraQt Sir Q, nome comum, NOZ, Cochon Noir, Bernardo Devlin e Silêncio para 4, colaborando também regularmente com a coreógrafa Ana Borges. Entre 2000 e 2004 foi ainda diretor artístico do evento itinerante NOMAD.
Na bateria surge Jorge Lopes Trigo, músico ativo desde 1994 em projetos ligados ao pop, rock, funk, improvisação e música experimental, tendo integrado bandas como O Quarto Fantasma e projetos como Fungaguinhos e Al-Jiçç. Paralelamente desenvolve trabalho pedagógico e oficinas dedicadas à percussão e iniciação musical.
Já Nuno Damião iniciou os estudos na Escola do Hot Clube de Portugal em 1998, aprofundando posteriormente formação em guitarra jazz com Alcides Miranda. É principal compositor da banda de etno-fusão Al-Jiçç, projeto com sete discos editados, tendo também colaborado com os Corsage antes de integrar os Otoma-kobito.
Com “Lastro”, os Otoma-kobito inauguram assim um percurso dividido em três capítulos, propondo uma escuta instrumental assente na tensão entre improvisação, composição e repetição, onde a música surge simultaneamente como processo coletivo, viagem conceptual e exercício contínuo de construção.

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