Para quem cresceu e percorreu a zona oriental da cidade, a ideia de um pic-nic junto ao Rio Tinto despoleta automaticamente um conjunto de alertas e memórias intensas sobre o seu passado. Nos anos 80 e 90, os níveis de poluição remetiam este curso de água para a condição de esgoto a céu aberto. O seu percurso era também marcado por uma profunda decadência urbanística e social, espelho cruel de anos de falta de planeamento, consciência ecológica e desigualdade.
O processo de despoluição foi — e continua a ser, pois ainda há muito caminho a percorrer — naturalmente lento. Mas o rio voltou a ser rio e, de uma das zonas mais degradadas da cidade do Porto, (re)nasceu o Parque Oriental, que sobre os fantasmas do passado se ergue como uma promessa renovada de esperança.
Sem fantasmas e com um otimismo renovado, celebramos um futuro mais verde com um simbólico Pic Nic Melancólico: uma tarde de música, atividades para famílias, conversas e convívio para que todos possamos descobrir um dos maiores e mais surpreendentes parques da cidade.
Ao longo da tarde haverá também uma Mesa Comunitária.
Quem quiser pode trazer algo para partilhar — fruta, pão, bolos caseiros, sumos ou outras iguarias. Não é obrigatório contribuir; é apenas um convite à partilha e ao convívio.
Porque o futuro fazemos juntos!
PROGRAMA
16h30 — Sononautas: Ecoescuta
Workshop para famílias
Formadores: Sonoscopia
Duração: 90 minutos
Sononautas – Ecoescuta convida-nos a habitar o lugar do outro — o lugar do não humano, do intraduzível. Através de uma escuta deslocada e atenta, esta oficina procura abrir passagens para novas perspetivas auditivas e para dimensões sonoras invisíveis.
Num ambiente participativo, os participantes são desafiados a inventar e explorar dispositivos de escuta expandida, construídos com materiais simples como cartão, paus, folhas ou pedras recolhidos no próprio espaço.
Partindo da ideia dessa outra escuta — a das árvores, das pedras, dos ventos e de tantas presenças que nos envolvem — procuramos ouvir para além da paisagem, reconhecendo que ela própria também escuta, ressoa e nos devolve ecos e silêncios.
17h30 — Loup Uberto
Concerto
Duração: 40 minutos
Loup Uberto é um músico, compositor, vocalista, arquivista sonoro e construtor de instrumentos francês, cuja prática artística se situa na confluência entre a música tradicional e a improvisação experimental. Fundador do projeto Bégayer, desenvolve um trabalho multidisciplinar que atravessa a performance, a investigação, a fotografia e a instalação sonora.
Ao longo dos anos, realizou diversas pesquisas de campo e recolhas sonoras em territórios como Cuba, a Europa de Leste, a Síria, a Tunísia e Itália, explorando repertórios populares, práticas vocais e formas de expressão ligadas ao trabalho, ao exílio e à memória coletiva. O seu trabalho procura criar pontes entre tradição e contemporaneidade, questionando os processos de desenraizamento cultural e as formas de resistência e transmissão.
18h15 — Roda de conversas sobre o Rio Tinto e o Parque Oriental
A devolução dos espaços públicos à população permite-nos repensar as cidades de forma a que a vida das pessoas que a habitam possa ser muito mais do que a angustiante correria entre o trabalho e a casa. O Parque Oriental, cuja extensão de Rio Tinto até ao Freixo ultrapassa os 10km, abre fendas sobre antigos caminhos rurais, zonas de falência industrial e caos urbanístico, criando um espaço verde que faz justiça a uma zona da cidade que foi sempre esquecida. Ao longo de uma grande parte do parque encontramos o Rio Tinto, que nos anos 80 era um dos mais poluídos da Europa e com descargas ilegais diárias de fábricas circundantes. É hoje um rio com uma fauna e flora renascidas, e ladeado em algumas zonas por hortas comunitárias que fazem com que este rio e este parque seja hoje vivido de uma forma bem mais digna. Esta conversa é um convite a quem habita ou habitou esta zona para recordar, partilhar histórias e refletir em conjunto sobre as transformações que marcaram o Rio Tinto e o Parque Oriental nas últimas décadas.
19h00 — Sunflowers
Concerto
Duração: 45 minutos
Formados em 2014, no Porto, os Sunflowers têm vindo a agitar o panorama musical português desde então. Talvez porque o som implacável que produzem entre em dissensão com o seu nome florido. Talvez pela sua ética de trabalho inigualável e inquietante. Talvez seja apenas controlo mental através de ondas rádio. Quem sabe?
As várias digressões da banda comprovam-no: Portugal, França, África do Sul e Inglaterra são apenas alguns dos países potencialmente hipnotizados. Se o título do último álbum, Endless Voyage, for um presságio, o hipnotismo sónico dos Sunflowers não terá fim.
A Sonoscopia é uma associação para a criação, produção e promoção de projectos artísticos e educativos, centrada nas áreas da música experimental, na pesquisa sonora e nos seus cruzamentos transdisciplinares. Desde a sua criação, em 2011, produziu mais de 700 eventos, criações artísticas, actividades pedagógicas e publicações. Esteve presente em cerca de 20 países europeus, bem como em geografias tão distantes quanto os Estados Unidos, a Colômbia, o Chile, o Líbano, o Japão, a Tunísia ou os Emirados Árabes Unidos. Das suas criações destacam-se os projectos Phonambient, INsono, Phobos - Orquestra Robótica Disfuncional e Phonopticon. Em Portugal, a Sonoscopia é parceira de entidades como a Fábrica das Artes/CCB, o Teatro Nacional São João, a Fundação de Serralves, o Cine‑Teatro Louletano, o GNRation e o Teatro de Ferro. Dispõe ainda de um espaço localizado no Porto, com pequenos estúdios equipados e preparados para a concepção e produção de trabalhos criativos e científicos, residências e apresentações informais, tendo acolhido centenas de artistas de todo o mundo. A Sonoscopia é uma estrutura apoiada pela República Portuguesa - Cultura, Juventude e Desporto/Direção-Geral das Artes.
Rua de Silva Porto 217
4250-469 Porto - Portugal
sonoscopia@gmail.com
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