Por isso, voltar a pisar aquele chão causou-nos arrepios na espinha. Como foi bom reviver cada um daqueles recantos, e encontrar aquelas gentes. Para quem vive na confusão da cidade todo ano, respirar aquele ar é terapêutico.
Voltar a mergulhar nos sons nacionais, faz-nos perceber que a música portuguesa está de boa saúde e que um festival como o Bons Sons faz todo o sentido.
Foram quatro dias intensos, este ano sem tempo de ver tudo, mas quase. Em 2026 chegou um palco novo de nome Rosa Ramalho, em homenagem à ceramista de Barcelos, que ficava ali mesmo ao lado, numas hortas, e que batia ligeiramente com o que acontecia noutro local. Mesmo o que se passava no auditório, não dava hipótese de ver, pois tinha a sua existência em cima de outras acontecimentos e obrigava a uma escolha.
Tirando isso foram quatro dias intensos de concertos inesquecíveis, que como é lógico, fomos gostando de maneira diferente.
E a ajudar à festa, todo o ambiente de fraternidade ali vivido. por quem chega e por quem está e ajuda a montar e leva até ao ponto final os Bons Sons, fazendo de Cem Soldos uma paragem obrigatória em agosto.
20 anos já lá vão, venham mais 20 para nos voltarmos a reencontrar, sempre que o calendário assim o ditar.
Entre 6 e 9 de agosto foram mais de três dezenas os concertos em que pusemos a vista em cima. Fica a narração sincera de quem vos escreve, de coração aberto e alma cheia.
Dia 6 de agosto
Dia 6 começou no palco A Música Portuguesa a Gostar Dela Própria (MPAGDP), com o trio Serigosa. Duas meninas espanholas e uma portuguesa recriaram com mestria sons ibéricos. Respiramos por instastes muito do que a cultura desta península que não é só nossa nos tem para ofertar. Sons por vezes misturados com instrumentos mais clássicos como o violoncelo. Foi gracioso.
Um pouco mais acima no palco Giacometti. Líquen, que ali estava por ter vencido uma das edições do Termómetro, agraciou todos com um som doce que tanto é pop, como depois pode ser tradicional. Constança Ochoa mistura tudo isto e muito mais de forma requintada e agarra o público, que aquela hora da tarde (15h30) já suava em bica.
Continuando a subir até em frente à Igreja, paramos no palco Amália para escutar Claiana. Voz, baixo e eletrónicas trazem ritmos africanos, bem dançáveis, obrigando todos a bater o pé. Concerto frenético e bem balanceado.
Depois, um passeio de quase 20 minutos até uma das hortas que alberga o palco Rosa Ramalho. À nossaespera. Tiago Castro, mais conhecido por Acid Acid. Momento relaxante, onde sons inspirados por algum krautrock, nos fezem voar até ao espaço. Foi leve e muito bom.
Pela primeira vez no palco Lopes Graça, fomos levados até ao mundo dos Miss Universo. Formados por André Ruivo e Afonso Branco (neto de José Mário Branco), fizeram da palavra de ordem uma bela arma, durante este concerto, acabando quase a homenagear José Mário Branco em FMI. Ofertaram a todos um som que tanto foi rock, como por vezes quase canção de autor e outras até mesmo tradicional. Foi um concerto certeiro, sem grandes sobressaltos, que sem nos causar muitas borbulhas, nos deixou mesmo assim com um sorriso nos lábios
Depois, enorme viagem até ao palco António Variações para escutar o punk aguçado dos Mães Solteiras, a banda que tem nas suas fileiras as “estrelas” Ricardo Martins na bateria, André Henriques na guitarra, Gaza no baixo e Quim Albergaria na voz. Foi altura de partir a loiça, gritar palavras de ordem e incitar todos ao moche. E assim foi, levantou-se pó do chão numa atuação de punho no ar, que mexeu com todos os presentes.
Voltando ao palco Lopes Graça, encontramos os vizinhos Quinta do Bill, banda que anda na estrada desde finais dos anos 80. Com muitos êxitos na mala, conseguiram agarrar de forma sábia a audiência, que vai vibrando ao som da banda. Foram momentos bem passados ao som da folk dos Quinta do Bill, ou se quisermos mesmo do som mais medieval que nos oferecem, essencialmente nos temas instrumentais.
Era quase uma da manhã quando Xullaji subiu ao palco António Variações, trazendo na manga muitas palavras de ordem, fossem, elas cantadas ou ditas, de punho erguido. Senhor que já vimos noutras paragens, com outros nomes, brindou todos com um hip hop certeiro, como ditam as boas regras. Teve momentos mais rimados e outros que devido a alguns instrumentos em palco soaram mais soul. Foi um belo fim de primeiro dia.
Já não houve força para ir espreitar Pedro da Linha no palco Aguardela. A cama chamava pelo corpo, e este era apenas o fim do princípio.
Dia 7 de agosto
No sítio de MPAGDP tudo começou com Sons do Lagar e Coro da Cura juntos. Os primeiros da Lousã os segundos o coro oficial da MPAGDP, de Serpins. No ar foram soltando canções que o Tiago Pereira e a sua equipa têm recolhido por esse Portugal fora. Foi uma volta a Portugal por sons tradicionais, que nos mostram o melhor do nosso país.
Depois no palco Giacometti foi a vez de Rita Cortezão que ganhou lugar no Bons Sons por ter vencido uma das últimas edições do Festival Termómetro. Munida de um teclado, foi debitando sons intimistas, que estavam difíceis de penetrar o corpo devido ao suor. Ficou a vontade de a ver num local mais intimista, pois deixou mesmo assim algumas boas marcas, no ar.
Desta vez não fomos até às hortas, ver Natércia Lameiro, a portuguesa do trio Serigosa manusear o seu acordeão.
Em contrapartida fomos ao largo de MPAGDP “fazer ideia” do que lá se passava. Aqui um “casal” munido de uma guitarra acústica e depois de um pequeno piano, e com algumas placas de cartão com dizeres, iam debitando e cantando canções quase de intervenção e jogando com as palavras de forma muito divertida. Humor quase negro muitas vezes, mas bastante inteligentes. Foi bonita a viagem dos dois por entre o público presente.
Vimos depois em passo alargado até ao palco Giacometti para não perder nada de Rossana, a menina que vive entre Portugal e Inglaterra e que aqui foi acompanhada por músicos ingleses e portugueses. Mais um dos grandes shows deste festival, onde a música tradicional é reinventada e se mistura com uma pop cativante. Rossana é uma fera de palco oferecendo sensualidade a todos os presentes. Impossível resistir a este som, que misturava instrumentos tradicionais com guitarras elétricas e outros e nos obrigava a dançar.
Sozinho com uma guitarra acústica, no enorme palco Zeca Afonso, o brasileiro Luca Argel, que se naturalizou português para um dia poder tocar no Bons Sons. Este foi um concerto intimista, e muito sereno que quase em início de noite relaxou os corpos estendidos na relva artificial. Entre temas, algumas palavras de luta, logo iam sendo quebradas pelas cordas da guitarra. Foi um belo e grande retrato do que é vir do Brasil e ganhar o seu lugar devido a um talento que dificilmente se esconde.
Logo a seguir vamos até ao palco Lopes Graça, para presenciar a atuação dos Xauxau Dodô. Apesar de ser um grupo com excelentes músicos, uma voz doce, e sons que têm muito de soul, não conseguiram agarrar grande parte de quem os escutava. Faltou um pouco mais de garra para conseguirem bater certeiros nos nossos corações. Deixaram, no entanto, bons indicadores e a vontade de os voltar a ver.
Viagem grande até à estação Zeca Afonso. Ao chegar deparamos que o comboio está atrasado, o que é raro acontecer por estas paragens. Resolvidos os problemas, somos brindados com o jazz potente dos Yakuza. Contudo, o fumo constante e o jogo de luzes foi-nos impedindo a espaços de usufruir da melhor maneira deste concerto. Foi pena, pois quem já os viu, diz serem muito bons. E em disco valem mesmo a pena.
Um pouquito mais acima somos levados, no Lopes Graça, pela mão dos “velhinhos” TT Syndicate numa viagem até aos anos 50. Passeio nostálgico, mas muito delicioso. São muitos anos de palcos a deixarem marcas, que fazem a perfeição, no corpo destes músicos. O público respondeu e gerou-se um entrosamento bonito entre a plateia e o palco.
Quase a chegar o fim da noite, é “montada” uma pista de dança no palco António Variações para receber Fidju Kitxora, que nos brindam com ritmos bem dançáveis, que buscam essencialmente a sua raiz em Cabo Verde. A um DJ são juntos instrumentos reais que trazem um som mais orgânico a estas canções. Foram momentos de pura dança no palco ou cá em baixo. Houve até tempo, coisa inédita, de ofertar um vinil a um dos fotógrafos presente, neste caso o bom amigo Fausto Silva. Foi um concerto a fazer mexer as pernas, e por isso já não tivemos força par ir ao palco Aguardela ver os Brandos Costumes.
Dia 8 de agosto
E ao terceiro dia conforme as escrituras tudo começou como de costume no palco de MPAGDP. Os The Suma trazem palavras de ordem em formato spoken word, misturadas com variados sopros. Um agradável momento de alguma experimentação.
Mais abaixo no palco Giacometti, Lisa Sereno oferece a todos, e como nos revela o seu nome, um concerto sereno. Um momento de partilha de bela pop, servida por uma voz sensual. Foi celestial.
Seguem-se as Crua, no palco Amália, que o calor descomunal quase fritava. Vindas do Porto, ofertaram à imensa multidão sons tradicionais servidos por percussões. Momento alto onde se mostrou o melhor da cultura popular.
Deixamos as Crua a meio, para rumarmos a uma nova horta. No palco Rosa Ramalho, Calcutá esperava por nós para mostrar algumas canções do seu primeiro disco editado pela Ovo Estrelado. Acompanhada de contrabaixo e bateria, Calcutá, munida de guitarra elétrica e voz foi soltando canções geometricamente arranjadas, onde alguns sons mais sónicos ornamentavam os arranjos. Momento sereno no meio da natureza que dava para pintar uma aguarela, ao som das vozes por vezes mais etéreas de Teresa.
De volta ao palco Giacometti a tempo de ver os Marquise. Pelo caminho fica o Coro Alarido. que já não tivemos tempo de escutar junto à igreja. Os Marquise, depois de uma falsa partida, lá encarreiram, dando um concerto certinho, sem muitos altos e baixos. Foi o bastante para não desiludirem, e mostrarem o seu rock, que por vezes nos parece soar melhor em disco.
Descemos a seguir, e com cuidado, até ao palco Zeca Afonso, para cumprimentar Jorge Cruz e os Torrente. Os Torrente, são O Marta na guitarra e os restantes, gente que já vimos nos Retimbrar. Jorge Cruz veio munido de muitas canções que já conhecemos, dando-lhes novas roupagens. Como sempre o tradicional é um condimento forte da sua escrita. Tempo ainda para passarem pelo palco B Fachada e Rossana. Ficámos de coração cheio e muito curiosos à espera do novo disco.
Já em cima, no Lopes Graça, Luís Varatojo e companheiros iniciavam a prestação de Luta Livre. Sim, estas são canções de luta, livres e certeiras. Uma pop dançável, onde alguma tradição marca presença. Foram uns minutos bem passados ao som destas novas canções de intervenção. Os tempos são conturbados, é bem verdade.
Quase sem tempo para respirar, subimos ao palco António Variações. Por lá os Mordo Mia vão soltando alguma esquizofrenia salutar. Um leque de canções, entre o pop e o rock, difíceis de digerir à primeira. Ficou por isso a vontade de os repetir em palco a ver se à segunda tudo se assimila mais suavemente.
A comemorarem 20 anos, os Cacique 97, levam até ao palco Lopes Graça, o seu afrobeat. Concerto a não deixar ninguém quieto. Músicos cinco estrelas, os Cacique 97 mostram, porque a vida ainda lhes sorri, numa prestação arrebatadora, onde é evidente o gozo que tudo isto lhes dá. E a sorte grande sai-nos a nós, felizmente.
Mais uma vez, e como o suor era muito, fomos descansar e não tivemos força para ir ao palco Aguardela ver Catarina Silva.
9 de agosto
A MPAGDP oferece para início do último dia no seu palco, o som do Cancioneiro de Benfica. A ideia parte de Tiago Pereira que vai registando naquela freguesia de Lisboa, canções interpretadas pelos seus residentes. O coro que também alberga gentes daquelas paragens pega nessas canções, que podem ser hip hop, pop ou outra coisa qualquer e depois as canta à sua maneira. Para além de algumas gravações, tivemos alguns dos cantores em palco, a mostrarem as suas crias. Ou seja, ouvimos primeiro o original e sempre depois a versão feita para as vozes do coro. Alguns resultados são muito curiosos.
Logo a seguir, debaixo de um sol de rachar, perto das 15h30, no palco Giacometti, o punk puro e duro dos Cortada. Tudo se espera ouvir àquela hora menos este punk. A estranheza causa em muitos boas reações, uma vez que os Cortada não deixaram os créditos por mãos alheias. Foi um concerto forte, onde as palavras têm um lugar certeiro. Quase a desidratar, resolvemos o assunto com uma bela cerveja.
Louvor às Pauliteiras de Miranda do Douro e músicos acompanhantes pela entrega total, debaixo de tanto calor. As fatiotas não ajudavam, as coreografias muito menos, e o fato de andarem a passear pela aldeia complicou tudo. Mas foi este um momento tão gracioso e esbelto, que tanto calor para nós foi quase irrelevante. Afinal a tradição está bem viva, a ver pelos jovens rostos destas pauliteiras.
Lá ao fundo o palco Giacometti veste-se de negro para receber La Família Gitana. As tradições ciganas e as suas músicas são recebidas de forma entusiasta por todos e a festa acontece e tem direito a passos de dança.
Sozinho com um piano de cauda, num palco gigante de nome Zeca Afonso, Máximo consegue um momento, sublime, de comunhão com a vasta audiência. Foi terapêutico e muito relaxante. Os corpos no chão iam sorvendo cada nota que Máximo ia tocando e aplaudiam efusivamente. Numa prestação em que revestiu os seus temas de algum experimentalismo, o destaque vai para a bela versão de “Verdes Anos” do mestre Carlos Paredes.
No palco António Variações a Cremalheira do Apocalipse já está a postos para a festa. De Santo Tirso chega uma comunidade de pessoas portadoras de deficiência, que faz música com tudo aquilo que tem à mão, desde instrumentos mais convencionais, até cafeteiras e testos. As letras são parte importante e dão uma pitada de ironia ao quadro. Momento ímpar a que o público reagiu de forma efusiva e a pedido do ”maestro” não fez moche, fez mochinho.
Logo a seguir um punhado de estrelas sobe ao Lopes Graça, sob o nome de Seara. Júlio Pereira, Daniel Pereira Cristo, Amélia Muge, Rão Kyao e Manuel de Oliveira juntam-se para um momento em que música de raízes essencialmente tradicionais, desta e de outras paragens, é trazida com muita leveza e encanto. Cada um deles teve o seu momento, e cada um brilhou e mostrou a sua mestria da melhor maneira. Apesar de ter sido bom, e vindo de quem vinha, faltou apenas um clique que nos pudesse ter importunado ainda mais. Teria sido muito melhor.
O último “concerto” do festival coube à dupla MXGPU no palco António Variações. Formados pelos produtores Moullinex (Luís Clara Gomes) e GPU Panic (Guilherme Tomé Ribeiro), transformaram a eira numa gigante pista de dança. Entre um som mais eletrónico, a dupla não descura a parte mais humana do seu som onde a voz de tem papel importante. Foi um bom fecho de festa.
Não, a festa afinal só acabaria no palco Aguardela com o Baile Festeiro e o corte do bolo, feito pelos locais a comemorar 20 anos de Bons Sons. Nos pratos malta que criou o Bons Sons e gente que agora lá está, brindou todos com um naipe de temas de bandas que já pisarem aquelas paragens.
O fim
A tristeza já nos invade a alma. Falta tanto tempo para regressar a Cem Soldos. O Bons Sons só deverá voltar em 2028. Como fazer para nos acalmarmos?
Se foi bom? É sempre! Se teve bons concertos? Tem sempre! Se poderiam ter ido outros artistas. Sim, obviamente! Mas quem por lá passou, esteve muito bem e fez desta, outra edição inesquecível. Uns melhores que outros, já foi dito.
E houve tanto para fazer. Tantos reencontros. Novas amizades. Cem Soldos é isto. O Bons Sons é isto. Não é passado, é futuro. São mais 20 anos, ou mais ainda. O Bons Sons somos todos nós, e eles, os de lá. Viver a aldeia é super. Não há festival como este e a música portuguesa agradece.
Um ano em que por graça se dizia, ser o do pé descalço e da palavra. Nos palcos dos Bons Sons foram muitos os artistas a aparecerem descalços a tocar e cantar. Houve também muita palavra e luta em muito concerto, sempre ordeira e sempre urgente.
Pensemos por agora que isto é um até já...
Texto e Fotos: Nuno Ávila
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