sexta-feira, 17 de abril de 2026

DOIS NOVOS DISCOS DE ANTÓNIO OLAIO





















“If My Heart Had a Brain” e “Next Stop is Yesterday” revelam dois encontros criativos distintos que expandem o universo musical e performativo do artista.

António Olaio apresenta dois novos trabalhos discográficos editados pela Lux Records — If My Heart Had a Brain, em colaboração com Victor Torpedo, e Next Stop is Yesterday, com Manuel Guimarães. Dois álbuns, duas linguagens, dois diálogos artísticos que confirmam a singularidade de um criador que continua a cruzar música, artes visuais e performance.

IF MY HEART HAD A BRAIN

António Olaio & Victor Torpedo

O que começou com a troca de duas canções rapidamente se transformou num álbum inteiro. Em If My Heart Had a Brain, António Olaio e Victor Torpedo constroem um universo onde música e palavra se contaminam mutuamente, num processo quase orgânico: às composições de Torpedo, densas e evocativas, juntam-se as letras de Olaio, que parecem descobrir melodias escondidas dentro das próprias melodias.

Canções como “Where Paris Used To Be”, “Les Amours de Salazar”, “Crying My Brains Out” ou a faixa-título revelam um disco onde o absurdo, o humor e a melancolia coexistem, como se o coração pensasse e o cérebro sentisse — invertendo papéis e expectativas.

Victor Torpedo, músico e artista plástico natural de Coimbra, é uma figura incontornável do rock’n’roll português. Guitarrista de bandas como Tédio Boys, 77, Tiguana Bibles e The Parkinsons, mantém uma atividade prolífica e inquieta — só em 2023 editou 12 álbuns, posteriormente reunidos numa box de luxo pela Lux Records. Lidera também os Pop Kids, banda com quem transporta para palco a energia crua e explosiva que marca o seu percurso.

NEXT STOP IS YESTERDAY

António Olaio & Manuel Guimarães

Em Next Stop is Yesterday, o piano de Manuel Guimarães torna-se o território onde as palavras de António Olaio encontram novas formas de existência. Entre canções inéditas e outras que ganham aqui nova vida, o disco reflete a dimensão performativa do duo, aproximando-se da forma como estas composições se revelam ao vivo.

Temas como “Black Jello Birthday Party”, “I’m Just Another Brain in the Country”, “Heading West” ou “Next Stop is Yesterday” evidenciam a enorme plasticidade do piano de Guimarães — um instrumento que não acompanha apenas, mas transforma, expande e reinventa cada canção.

Manuel Guimarães, pianista, compositor e improvisador, desenvolve desde os anos 60 um percurso que cruza múltiplos universos musicais — da música erudita ao jazz, do folk à improvisação transidiomática. Com formação na Academia de Música de Espinho, no Conservatório do Porto e na Universidade Nova de Lisboa, tem colaborado com diversos projetos ao longo das últimas décadas, destacando-se o seu trabalho em duo, nomeadamente com António Olaio. A sua prática artística é marcada pela liberdade formal e pela constante reinvenção do discurso musical.

Já António Olaio reforça neste trabalho a sua capacidade de adaptação e reinvenção, explorando a canção como espaço de experimentação contínua — onde o tempo, como sugere o título, não é linear: a próxima paragem pode muito bem ser o passado, ou algo que ainda está por acontecer.

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