sexta-feira, 25 de setembro de 2026

MIO LANÇA EP DE ESTREIA















mio
lança “não há ninho, há céu”, o seu EP de estreia, um trabalho construído a partir do ciclo de vida das andorinhas como metáfora para um percurso de descoberta, consciência e liberdade. Depois de se ter apresentado ao público com “26º dia”, a artista reúne agora as diferentes etapas de um processo que parte do despertar, atravessa a decisão de abandonar a zona de conforto e encontra no ninho não apenas um lugar de partida, mas também a possibilidade de regresso.

A própria data de edição prolonga a relação do projeto com os ciclos da natureza. “26º dia”, primeiro single de mio, foi lançado a 20 de março, no início da primavera no hemisfério norte e na altura associada ao regresso das andorinhas. Cerca de seis meses depois, “não há ninho, há céu” chega na semana em que a primavera começa no hemisfério sul, transportando simbolicamente o ciclo para a outra metade do mundo.

Essa ideia percorre todo o EP. Em “20.03”, mio situa o momento do despertar e o regresso à escrita, enquanto “fim da cegueira” parte do período em que as crias das andorinhas começam a ver para representar a tomada de consciência necessária antes do salto. Já “26º dia” corresponde ao instante em que as crias deixam o ninho pela primeira vez, imagem que a artista escolheu para assinalar também a sua própria estreia pública enquanto autora.

A saída da zona de conforto ganha continuidade em “primeiro voo”, tema onde o movimento associado ao salto encontra também expressão na componente musical. A canção reflete o trabalho desenvolvido com Luzingo, produtor que acompanha mio ao longo do EP e com quem a artista procurou construir uma sonoridade coesa sem abdicar da exploração de diferentes registos. O videoclipe conta com a participação de Valete - nome fundamental na mentoria de mio na sua obra musical.

Mas “não há ninho, há céu” não se constrói apenas a partir da ideia de partida. Em “a cru”, o olhar dirige-se às pessoas que foram surgindo durante o percurso e que passaram a fazer parte dele. A faixa mais calma do EP nasceu a partir de uma guitarra de Miguel Nogueira e joga também com a ideia de “crew”, apresentando mio num registo assumidamente sem filtros e transformando a canção numa celebração dos encontros proporcionados pela arte.

No centro emocional do trabalho encontra-se “ninho”, canção dedicada ao avô da artista e à história familiar que esteve na origem da decisão de regressar à música. mio começou a trabalhar aos 14 anos na padaria da família, ao lado do pai e do avô, cuja vida foi dedicada ao trabalho e à criação de melhores condições para as gerações seguintes. A sua morte tornou-se um momento de rutura e de tomada de consciência para a artista, que decidiu recuperar um sonho presente desde a infância e procurar um caminho diferente daquele que até então imaginava para si.

O ninho assume, por isso, um significado duplo: é aquilo de que é necessário sair para poder crescer, mas permanece como o lugar ao qual se pode regressar. A vontade de construir um percurso próprio não representa uma rejeição do legado familiar, mas uma forma de o prolongar a partir das possibilidades que esse mesmo legado tornou possíveis. Cantar e escrever canções surgem, neste contexto, como uma maneira de mio honrar o caminho do avô e, simultaneamente, encontrar o seu.

O universo do EP estende-se ainda a “sítio das andorinhas”, poema nascido durante um passeio perto de casa, em Almada. O lugar onde mio sabia encontrar andorinhas e onde parava para respirar transformou-se progressivamente num espaço simbólico de segurança e tranquilidade, deixando de corresponder apenas a uma localização física para representar a possibilidade de parar, respirar fundo e recuperar a paz. O trabalho encerra com “outro”, outro momento de palavra e introspeção, construído a partir da tendência da artista para transformar pensamentos dispersos em poemas ou pequenas frases.

As letras de “não há ninho, há céu” são assinadas por mio, que partilha a composição musical com Luzingo. A produção fica maioritariamente a cargo de Luzingo, com Lopezzi a assumir a mistura e masterização de todo o trabalho e a participar também na produção de “sítio das andorinhas” e “outro”. Miguel Nogueira participa na guitarra em “sítio das andorinhas”, “fim da cegueira” e “a cru”.

O EP resulta de um percurso iniciado muito antes da estreia discográfica. mio começou a cantar ainda em criança, atuou pela primeira vez em público aos oito anos e escreveu a primeira canção aos 16. Entre os estudos, o trabalho e diferentes projetos, manteve durante anos a tensão entre a procura de estabilidade e a vontade de construir uma vida ligada à criação artística.

O reencontro com a música aproximou-a também do teatro e da Horizontal 360, estrutura que hoje considera a sua casa artística. Nesse caminho, o contacto com Valete e, posteriormente, o encontro com Luzingo assumiram um papel importante no desenvolvimento do projeto que agora chega ao primeiro registo discográfico.

Com “não há ninho, há céu”, mio reúne esse percurso numa imagem que atravessa todo o EP: crescer implica abandonar o lugar conhecido, ganhar consciência e arriscar o primeiro voo, sem que isso obrigue a esquecer o ninho de onde se partiu.

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