sexta-feira, 30 de outubro de 2026

BLACK BOMBAIM & ISAIAH MITCHELL JUNTOS EM VINIL















Foto © Carolina Ribeiro

Já está disponível, em formato vinil e nas plataformas digitais (Bandcamp, Apple Music e Tidal) "Black Bombaim & Isaiah Mitchell - Live in Porto", um disco que regista o concerto realizado no espaço da Lovers & Lollypops, no Porto, em maio de 2025. O coletivo fará três concertos de apresentação na próxima semana, dia 5 de novembro no Porto, dia 6 em Barroselas e 7 no Le Guess Who? (Utrecht, Holanda).

Umas das fixações de sempre da “crítica musical” no seu pavor pelo revisionismo histórico, foi sempre o teste do tempo. O envelhecimento da obra em justaposição com a húbris do momento; a evolução criativa do autor carregando o peso anacrónico do seu catálogo; ou uma gestão de expectativas face ao embaraço de uma inocência. Contextualizado frequentemente naquele louvor dirigido a algo (ou alguém) que se nos demora no ouvido: “Está tão bom e actual como há vinte anos atrás quando foi lançado (...)” É por isso inevitável que essa perspectiva hodierna qualifique o objecto de análise, mesmo quando a obra documente um passado cuja leitura continua refém das sensibilidades de quem o observa. Podemos ficar agarrados ao Uli Jon Roth do setentas, ao “Fragile” dos Yes, aos quatro primeiros álbuns dos Black Sabbath... mas o “show” tem de continuar!

Quando os Black Bombaim se juntaram a Isaiah Mitchell no festival Milhões de Festa a 27 de julho de 2014, o tempo era, naturalmente, outro. Fazia sentido, contagiava, agregava, e isso importa. A banda de Barcelos andava naquela altura a apresentar o seu quarto longa duração “Far Out,” e afirmava-se como um dos projectos mais originais e excitantes da sua geração nas fronteiras entre o psicadelismo/krautrock dos anos setenta e o heavy stoner dos anos noventa. Já o guitarrista Californiano era uma espécie de padrinho desse movimento, influenciando o subsolo Ocidental do rock instrumental mais pesado através de uma virtuosa improvisação e sobreposições de camadas em movimentos perpétuos da sua vintage Stratocaster. É justo dizer que os Earthless (a sua banda) apontaram avenidas sonoras para todo um filão transnacional de bandas que lhes seguiram. Um legado que deixou património em Barcelos e impacto directo nos Black Bombaim!

Juntos – tanto naquele distante concerto como neste registo ao vivo – funcionam hoje menos como uma banda convencional com um músico convidado do que como um organismo musical temporário que se complementa num território partilhado. E isso, o tempo não mudou. A estrutura aparantemente rígida (guitarras, baixo, bateria) dilui-se em domínios permeáveis (heavy psych, stoner rock, fusion, free jazz), em inspirações confluentes (Flower Travellin’ Band, Budgie, Blue Cheer, Endless Boogie) e ao instinto repetitivo que abre caminho ao serendipismo musical. No fundo, esta relação carnal com o ritmo, a saturação dos timbres, as reverberações ondulares, o balanço elástico do swing, e as distorções sincopadas continuam a definir o que são os Black Bombaim e Mitchell em uníssono. Ao longo das quatro faixas – “Intro,” “For B.,” “Hills,” e “Africa II revisited” – Live in Porto traça os contornos desse diálogo dinâmico carregado de fuzzy guitars, feedback, escalas modais intercaladas com polirritmias, e frases blues.

Contudo, voltando ao desafio inicia, como responder ao “teste do tempo” ao largo destes dez anos? Talvez este “revivalismo” seja uma forma de resistência orgânica, recuperando linguagens clássicas para realçar o suspense da imprevisibilidade. Num presente progressivamente entregue à fórmula digital, à assepsia artificial e à repetição maquinal de códigos treinados, a improvisação permanece um território de desobediência, devolvendo-nos o erro, o acidente e a imaginação como forças criativas. É nesse intervalo entre intenção e descoberta, onde ninguém sabe exactamente o que vem a seguir, que Live in Porto encontra a sua actualidade. Não há maneira de repetir os que estes quatro estão a fazer aqui, porque não há pauta, não há regras estanques, nem espartilhos artísticos. 

Ainda é inteligência humana! 

Texto: Manuel A. Fernandes

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