terça-feira, 20 de outubro de 2026

ESCÁRNIO COM NOVO SINGLE





















© Beatriz Pequeno

Escárnio apresentam “Sempre Sempre”, single de avanço para o álbum de estreia “Sangue e Leite”, com lançamento agendado para 31 de outubro. A canção parte de uma crítica irónica à repetição de nomes e sonoridades nos cartazes e circuitos da música portuguesa para desenvolver uma reflexão sobre expectativas, reconhecimento e o lugar das mulheres na música alternativa e independente. Construído a partir do contraste entre uma abordagem instrumental mais próxima da pop e uma escrita marcada pela ironia e pelo confronto, o tema introduz algumas das questões que atravessam o primeiro longa-duração da banda.

À primeira escuta, “Sempre Sempre” apresenta uma estrutura musical aparentemente mais leve e acessível, sustentada por uma componente melódica que contrasta com o conteúdo da letra. A escolha não procura diminuir a importância daquilo que é dito, mas antes criar uma distância entre a forma e a mensagem, permitindo que a crítica se desenvolva através do humor, do sarcasmo e de uma aparente despreocupação.

O ponto de partida encontra-se na observação de um circuito musical onde determinados nomes, projetos e linguagens sonoras parecem ocupar repetidamente os mesmos espaços de visibilidade. Escárnio questionam essa tendência para a reprodução de fórmulas e escolhas nos cartazes nacionais, expondo a dificuldade de afirmação de propostas que não encontram lugar nos circuitos estabelecidos. A crítica surge inicialmente num registo de desdém, mas acaba por revelar uma inquietação mais profunda sobre os mecanismos de reconhecimento e as oportunidades de participação no meio musical.

Essa tensão manifesta-se na própria letra, nomeadamente através da repetição da expressão “Ele há-de chegar”, que traduz uma expectativa de reconhecimento futuro. A promessa de que tudo acontecerá no momento certo é, no entanto, colocada em causa pela possibilidade de esse momento nunca se concretizar ou de não corresponder àquilo que se esperava. Entre a esperança e a desilusão, a canção questiona a ideia de que a persistência será necessariamente recompensada, sobretudo quando as condições de acesso e visibilidade permanecem desiguais.

É na parte final que “Sempre Sempre” assume uma dimensão distinta. Depois de uma primeira abordagem marcada pelo humor e pela ironia, a composição abandona progressivamente essa aparente leveza para dar lugar a um desabafo mais direto. A mudança aproxima-se da experiência de contar uma situação dolorosa através de uma piada, apenas para reconhecer, mais tarde, o peso real daquilo que aconteceu.

Este momento nasceu durante um ensaio, quando um texto anteriormente escrito como poema acabou por ser integrado na composição. O que inicialmente surgia como uma canção mais ligeira ganhou, assim, uma segunda parte que altera a leitura do tema e estabelece uma ligação com o universo conceptual de “Sangue e Leite”. A transformação não resulta apenas de uma mudança musical, mas também da passagem de uma crítica dirigida ao funcionamento do meio artístico para uma afirmação pessoal sobre a necessidade de existir, criar e ser ouvida.

A frase “Tou à porta do céu mas ela tá fechada” sintetiza essa deslocação. A imagem de uma porta que permanece encerrada aproxima a procura de reconhecimento da experiência de exclusão, dando expressão a uma voz que reclama o direito de ocupar espaço. A partir desse lugar, “Sempre Sempre” deixa de se limitar à crítica dos cartazes e das oportunidades no circuito musical para abordar questões relacionadas com o papel das mulheres na sociedade e com a sua presença nos territórios da música alternativa, independente e de sonoridades mais pesadas.

Essa dimensão atravessa também a identidade de Escárnio, projeto que coloca a palavra, a intensidade instrumental e a expressão performativa no centro da sua criação. Entre guitarras de sonoridade crua, uma bateria de ritmo marcado e uma escrita direta, a banda desenvolve canções onde a revolta e a vulnerabilidade coexistem, procurando dar forma a experiências de resistência, afirmação e confronto com diferentes mecanismos de silenciamento.

A abordagem de Escárnio parte da ideia de que a música pode funcionar como espaço de expressão individual e coletiva, sobretudo perante realidades que continuam a limitar a participação e a visibilidade das mulheres. Os gritos, as mudanças de intensidade e a relação entre a voz e os instrumentos assumem, neste contexto, uma dimensão que ultrapassa a construção musical, aproximando-se de uma necessidade de comunicação e de afirmação da própria existência.

“Sempre Sempre” sucede aos primeiros lançamentos da banda, iniciados com o EP de estreia “Falha-me Deus”, editado a 17 de junho de 2025. O trabalho marcou o início do percurso discográfico de Escárnio e deu origem a vários concertos de apresentação, estabelecendo as bases de uma linguagem musical onde a energia instrumental acompanha uma escrita marcada pela observação crítica e pela expressão pessoal.

A 31 de outubro de 2025, Escárnio editaram o single duplo “Faca e Queijo” e “Espelho Meu”, dois temas que anteciparam o caminho para o primeiro álbum. Um ano depois, a banda prepara-se para apresentar “Sangue e Leite”, trabalho que reúne e desenvolve algumas das preocupações presentes nas primeiras edições, aprofundando a relação entre experiência individual, desigualdade e resistência.

O lançamento do álbum será acompanhado por uma série de concertos de apresentação, com início a 31 de outubro, na Musa de Marvila, em Lisboa, coincidindo com a data de edição do disco. Segue-se uma atuação no Teatrão, em Coimbra, a 20 de novembro, e um concerto na Sala6, no Barreiro, a 19 de dezembro.

O tema foi gravado e masterizado por André Isidro, misturado por André Isidro, Violeta Luz Alexandre e Pedro Treno. O videoclipe foi gravado por Beatriz Pequeno e editado por Violeta Luz Alexandre e Pedro Treno.

Com “Sempre Sempre”, Escárnio aproximam-se ao universo de “Sangue e Leite”, partindo de uma crítica à repetição e à falta de abertura no meio musical para chegar a uma reflexão sobre exclusão, identidade e afirmação. Entre a ironia de uma canção aparentemente ligeira e a intensidade do desabafo que encerra o tema, a banda coloca em evidência a distância entre a promessa de que haverá um lugar para todos e a experiência concreta de quem continua a encontrar portas fechadas.

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