Fotografia por Alessandra Peviani
Segundo álbum da dupla chega a 2 de outubro, em CD, vinil e no Bandcamp, com edição pela Ajabu! Records, e às restantes plataformas digitais uma semana depois (9 de outubro). A apresentação ao vivo acontece a 24 e 25 de outubro, em Lisboa, na Sala Estúdio Valentim de Barros.
Há barcos que não navegam sozinhos. Há memórias que não ficam no lugar onde nasceram. E há identidades que se fazem precisamente do movimento. É a partir destas ideias que os Bandua chegam a BANDUA II, o segundo álbum da dupla formada por Bernardo D’Addario e Edgar Valente, que encerra um primeiro ciclo do projeto e abre caminho a uma nova etapa, centrada na circulação entre memória, território e futuro.
O disco tem edição física e digital no Bandcamp a 2 de outubro, em CD e vinil, pela Ajabu! Records, de Berlim, chegando às restantes plataformas digitais a 9 de outubro. A apresentação ao vivo está marcada para os dias 24 e 25 de outubro, na Sala Estúdio Valentim de Barros, nos Jardins do Bombarda, em Lisboa, dando início à tRAVEssia, digressão de lançamento de BANDUA II.
O lançamento sucede a “Flor do Rosário”, editada em maio e a “Barquinho” em junho. Se o primeiro álbum, Bandua I, construía um mito de origem ancorado em Berlim e na Beira Baixa, BANDUA II desloca-se desse mito para o presente. O eixo deixa de estar na procura de uma identidade e passa a estar naquilo que acontece quando diferentes identidades, memórias e geografias se encontram.
“O eixo deixa de ser a identidade e passa a ser a alteridade, é menos uma pergunta sobre quem fomos, mais uma constatação sobre o que somos: cruzados, plurais e inacabados”, explica Edgar Valente.
Nesse presente, Portugal aparece como um porto: um território onde embarcam e desembarcam memórias, legados e pessoas, atravessado por circulações que nunca param de o desconstruir e reconstruir. É essa condição de um país historicamente voltado para o mar, pequeno e periférico, e por isso inevitavelmente empurrado para fora de si próprio, que os Bandua tomam como matéria de trabalho.
A metáfora da polinização surge como uma das chaves de leitura do álbum. Ancestralidades e tendências globais cruzam-se e transformam-se mutuamente, à maneira de abelhas e flores, sem que umas referências tenham de se impor, apagar ou apropriar-se das outras. É uma proposta que reconhece a violência inscrita na história colonial portuguesa e procura, a partir dela, pensar uma gramática de encontro em vez de uma gramática de posse.
A imagem do barco, já central em “Barquinho”, ganha assim uma nova dimensão. Se nesse tema uma pequena embarcação se recusava a navegar sozinha, transformando-se em lugar de abrigo, comunidade e encontro, em BANDUA II essa recusa torna-se método de trabalho. A viagem só acontece quando há pessoas dispostas a navegar em conjunto.
O próprio nome Bandua remete para uma entidade celtibérica associada ao ato de atar e desatar nós, imaginada aqui como a força invisível que, a partir das cordas das velas, orienta o barco. A ideia de ligação, cooperação e dependência mútua atravessa todo o disco e prolonga-se também no seu universo visual.
Musicalmente, BANDUA II amplia consideravelmente o território explorado pela dupla. Às raízes do cancioneiro regional da Beira Baixa juntam-se referências provenientes de outras regiões, como o Alentejo, e novas canções originais que continuam a dialogar com diferentes formas do cancioneiro popular português. A estas referências somam-se ainda outras geografias e temporalidades, do Egito Antigo ao Norte de África e às heranças célticas, sem que nenhuma delas se imponha como uma nova essência.
Também a componente eletrónica se transforma. O downtempo, que marcou parte importante do primeiro trabalho dos Bandua, deixa agora de ser predominante. O bpm acelera, abrindo espaço a momentos mais progressivos e ao drum and bass, levando o corpo a diferentes formas de se mover. A diversidade sonora acompanha a própria natureza da cena eletrónica em Portugal, eclética e sem identidade fixa, assumida pela dupla como território de exploração.
A dimensão visual do álbum aprofunda igualmente a reflexão sobre ligação e dependência. No videoclipe de “Barquinho”, os elementos da banda surgem atados um ao outro numa imagem deliberadamente provocatória, que convoca as amarras históricas, incluindo as da escravatura. A imagem não procura ser confortável: é antes uma forma de olhar para os nós que ainda apertam e pensar a possibilidade de os transformar em nós que libertam.
Na capa do disco, concebida por Carolina Mandrágora, uma figura de capitão que presta continência a um camponês convoca a ideia de respeito pelo ritmo da terra. Essa relação entre território, tradição e contemporaneidade prolonga-se nos novos figurinos, concebidos por Nuno Gama, com máscaras construídas a partir de peneiras camponesas.
Para a apresentação ao vivo, os Bandua levam ainda mais longe este universo. A nova cenografia, concebida por Pedro Conceição em parceria com o Centro Cultural de Lagos, amplia para as dimensões do palco o barco de papel presente na capa do disco. Sobre esta estrutura serão projetados lasers e conteúdos de vídeo-arte pela Paleta Itinerante, a partir de imagens captadas por João Alkmim, criando uma dimensão visual que cruza diferentes elementos e geografias do universo simbólico de Bandua.
quem são Bandua
Bandua é um projeto musical colaborativo entre o músico e produtor luso-brasileiro Bernardo D’Addario e o músico e cantor português Edgar Valente. A sua prática assenta na articulação entre a memória e a cultura portuguesa e as tendências musicais contemporâneas globais, construindo uma linguagem de música eletrónica enraizada no território. O resultado cruza elementos digitais e orgânicos, tecnologia e tradição, esbatendo fronteiras entre campo e cidade, passado e futuro, local e global.
D’Addario e Valente inscrevem-se, neste contexto, como parte de uma geração que convoca e cruza heranças culturais diversas, refletindo simultaneamente uma ancestralidade plural e uma prática artística aberta à absorção e transformação das linguagens musicais contemporâneas.
Se em BANDUA o discurso incidia sobre dimensões identitárias e interpretativas de uma narrativa que se iniciava com “Era Assim”, em BANDUA II o enfoque desloca-se para a afirmação do presente e das suas possibilidades, assumindo uma abordagem menos centrada na construção de mito e mais orientada para a realidade, sintetizada na formulação “É Assim”.
Trata-se de um disco que coloca no centro a aceitação da alteridade, em articulação com a revisão crítica das noções de identidade. Um movimento de reaproximação ao passado com o objetivo de produzir música no presente, orientada por uma escuta projetada para o futuro.

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